Posts Tagged ‘Paulo Ferreira da Cunha’

Manifesto pelo Sonho (V/V)

04/10/2011

IX. Escola de faz-de-conta

Suspeitamos que o grande problema do ensino superior está desde logo e sobretudo a montante: enquanto não tivermos um ensino básico e secundário realmente formativos, exigentes e seletivos, o ensino superior chegará demasiado tarde a estudantes já demasiado formatados (ou informatáveis: o que porém teria os seus méritos) para conseguirem compreender o espírito universitário. A culpa não é só da Universidade que forma professores mal preparados, como do clima geral de laxismo unilateral que o sistema (que é, na verdade, uma sedimentação de inúmeras reformas) institui.

Quando professores têm medo de dar más notas (quando têm mesmo receio de não dar as melhores notas), como pode um sistema avaliativo funcionar? Quando mais vale a papelada que a  sala de aula, como pode haver verdadeira pedagogia? Há um livro com um título brilhante a este propósito: é a obra de Hamilton Werneck, Se Você finje que ensina, eu finjo que aprendo, 26.ª ed. port., Petrópolis, Vozes, 2009. Mas pode-se inverter: porque muitos fingem que aprendem, os professores são levados a fingir que ensinam. E a fingir que avaliam. E porque o sistema premeia quem finge, fingir é crime que compensa. Penalizado é quem leva as coisas a sério.

O aumento vertiginoso de casos de plágio, a falta de sensibilidade de tantos a essa prática fraudulenta, encorajada pela simplicidade e banalização do copy-paste, de par com o desprezo de muitos pelo livro e pela leitura, havendo mesmo o culto do conseguir fazer as cadeiras sem ter lido um livro, apenas por manhosos apontamentos, agora já colocados até na Internet – e diz-se que consultados por telemóvel (celular) aí estão como sinais de alarme. As editoras procuram corresponder com manuais resumidos, abonecados, resumões e resuminhos. Que por sua vez sofrem ulteriores processos de deglutição rápida. Perante a sofisticação da fraude e a generalização da incompreensão, os docentes estão desorientados.

Em alguns países, os estudantes apresentam-se nas aulas de computador portátil e aí estão apenas em ofício de corpo presente. O professor pode pintar tragédia grega com pathos de eríneas vingadoras, lançar mesmo mão das mais vistosas folies bergères didáticas (como dizia um grande poeta professor); mas a aula é entrecortada na mesma por risos e até gargalhadas, reação natural a  filmes cómicos que se vão vendo no youtube

Os alunos não teriam falta se não fossem às aulas, mas a sua autonomia não chega para o não fazerem: ficam, mas o espírito não está lá… Nos meus tempos de caloiro, quando algum professor era mais suporífero, não se dormia nas aulas: faltava-se.

X. O Sonho e a Vida

Perde-se, pois, a liturgia sagrada da aula (que é sagrado sacrifício) e perde-se o também sagrado livro.

Conheci um vice-reitor que tinha como ponto de honra não lecionar uma cadeira sem dela fazer um manual, por que os seus estudantes vissem o seu olhar do assunto, e a interpretação que dos demais autores fazia, um guia para que se não perdessem na selva da doutrina. Fê-lo mesmo quando já estava com idade para se não meter nessas aventuras. Sempre o admirei por isso.

Outro exemplo marcante: quando, aos vinte e poucos anos, ainda sem mestrado sequer, um amigo meu foi promovido a regente de cadeira, um catedrático de muito prestígio procurou-o e incitou-o não a seguir as suas lições (caminho mais fácil e mais óbvio), mas a escrever um manual de sua própria autoria. Nunca se curaria disso, o pobre.

Hoje tal fará sorrir, nesse sorriso amargo de quem vê tempo e vida desperdiçados: para quê? Para quê escrever lições próprias, dirá o nóvel docente, se tenho aqui os apontamentos das aulas que me deram, e que me permitiram fazer a cadeira com boa nota? Para quê escrever lições próprias, se iria concorrer com mestres consagrados? Tenho é que fazer logo as teses e os concursos. Como é compreensível este raciocínio… Mas grande foi o gesto daquele Professor, ao não pensar nem na “boa nova” da sua mensagem insubstituível, nem nos mais prosaicos direitos de autor que, com mais fama, se propunha também a perder.

Há por aí (não nos iludamos) uns tantos pétreos agelastas. Mas também temos, felizmente, subtis ironistas. E existem mesmo exemplos heroicos. Não me impressionam muito os gestos largos dos que batem com a porta; interessam-me e edificam-me mais os daqueles que não abandonam o seu posto. Um catedrático já falecido dizia que a Faculdade era a sua trincheira. Não gosto da imagem, mas compreendo o espírito.

Ainda há os que são como aquele menino holandês com o dedo na fenda do dique. Até ele estalar de vez.

Muitas e muitos de nós quase não tiveram vida (quase não a têm) para entrar nesse sonho fascinante da Universidade. E para muitas e muitos o sonho volveu-se em pesadelo (vidas destroçadas, famílias preteridas, lares desfeitos, saúdes arruinadas, outros sonhos sufocados), no qual ainda teima em persistir algum pó doirado da primitiva fantasia.

Será que ainda se pode recuperar o tempo perdido, refazendo a vida perdida? Ou será que ainda há salvação no próprio sonho, agora povoado de monstros? São dois caminhos legítimos.

O que não se pode é perder a vida e o sonho. E não seria excelente recuperá-los aos dois?

Manifesto pelo Sonho (IV/V)

03/10/2011

VII. Estudantes que não gostam da Escola

A escola era, antigamente, risonha e franca – diz o velho poema. Não sabemos se o seria mesmo. A de agora é carrancuda e hipócrita. Os estudantes e mesmo alguns colegas não se cumprimentam nos corredores. O que se lê na Internet sobre alguns docentes não é edificante. Muitos estudantes não gostam mesmo da escola, fazem sacrifício em lá estar, não creem que o que aprendem seja importante, desprezam muitos professores, e quando têm que encontrar alguém que se salve (é da natureza humana inventar heróis, até para alimentar a nossa sede narrativa) muitas vezes escolhem os piores: mediocridades exóticas, pássaros insinuantes, sorrisos mediáticos, políticos da sua cor, demagogos mãos largas de notas, resumões ambulantes que se identificam com os seus powerpoints… Ou então – pasme-se – as feras de mão de ferro. Dialética do senhor e do escravo?

Dizem-nos que há professoras do ensino secundário que, para serem respeitadas, cuidam durante longas horas não de preparar as aulas (ou de viver bem e inteligentemente para estarem preparadas para elas, o que seria ainda melhor), mas da apresentação exterior (penteados, maquilhagem, roupas e até joias) e da cilindrada e extras dos carros que para as escolas levam. Porque o respeito é apenas exterior, dos sinais exteriores não de sabedoria, mas de status social.

Claro que em tudo há exceções, e por essas é que continuamos a sonhar. Mas mesmo independentemente de leis, de regulamentos, de direções, de ministros, na universidade reduzida à sua expressão mais simples, que é a relação entre quem ensina e quem aprende (ou deveria fazê-lo), há algo de estranho agora.

VIII. Perguntem aos Espíritos Livres

Perguntemos aos que – e tantos são – se aposentaram recentemente. Eles podem já falar livremente. Ninguém lhes tirará (espera-se) a reforma. Eles poderão quiçá ajudar-nos a identificar os problemas e até algumas soluções. Esperemos que ainda queiram falar. Que ainda não tenham perdido totalmente a esperança. E que não temam ofuscar-nos, cegar-nos mesmo, por nos mostrarem a luz.

Daqui lançamos o desafio a que os entrevistemos, um a um. A começar pelos que se notabilizaram como criadores, investigadores, pela sua obra. A começar quiçá, em cada país, pelos estrangeiros, mais distanciados… Depois os nacionais.

Alguns, como é óbvio,  não interessa sequer considerar. Desde logo, os que subiram na carreira pela mera burocracia ou ganharam aura por razões exógenas à Universidade, ou, nela, pela simples popularidade entre os alunos (que é o que os inquéritos pedagógicos medem, e mesmo assim só aos que têm paciência e empenho em responder-lhes). Não interessam as opiniões academicamente corretas dos que deveram o lugar à política, à família, às ligações, ou a outro fator adventício à essência universitária.

Não fiquemos por aqui no inquérito sobre a nossa situação. Consultemos também os estudantes, os que honram tal nome: os que estudam seriamente, e que têm aquela atitude, imprescindível ao aprender, que é a docilitas de que falava São Tomás de Aquino. Combinada com a irreverência, o rasgo e o risco. Ou, se preferirmos as imagens orientais, aqueles que ao entrarem na universidade não são chavenas cheias de chá, que já nada mais podem conter. Esses outros estudantes, que certamente sofrem também muito, poderão ajudar-nos a compreender o que se passa e a encontrar novos caminhos. Porque é preciso compreender o que se passa, e mudar.

Também do lado dos estudantes há mitos e preconceitos, que daqui nos vamos apercebendo. No nosso tempo de Coimbra, havia ainda em alguns uma vaga identificação pseudo-marxista (pobre do Marx que não tem culpa nenhuma das vulgatas) entre, de um lado, o estudantariado oprimido, e, do outro, a professoria opressora. Essa oposição parece agora vertida em linguagem capitalista: o professor seria um mau vendedor de um produto a um cliente que teria sempre razão?

Esquece-se o essencial: a universidade é, por definição, reunião, universalidade, diálogo entre professores e estudantes, não oposição. E nela há muitas coisas em que são iguais, e alguma em que o não são. Descobrir umas e outras é uma arte. Normalmente, em tempos de desnorte, põe-se o estudante igual ao docente no que não se deve, e estabelece-se a desigualdade no que deveria ser território de paridade.

COMEMORAR A CONSTITUIÇÃO DE 1911

01/10/2011

Depois de em 2010 se comemorarem os 100 anos da implantação da República, 2011 é o ano da comemoração do centenário da primeira Constituição Republicana.

Na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, por iniciativa do seu Instituto Jurídico Interdisciplinar, está marcada para a manhã de 6 de Outubro de 2011 a segunda parte de um colóquio internacional (a primeira parte fora em Outubro de 2010) sobre a temática geral da República(s) e Neorepublicanismo(s), e para 7 de Outubro novo colóquio, dedicado expressamente à Constituição de 1911. Visou-se uma reflexão interdisciplinar e internacional sobre a temática,  não de forma passadista, museológica e estática, mas projectada no contexto republicano geral, e visando a prospectiva do futuro.

Comemorando-se simultaneamente os 120 anos da Constituição brasileira que foi uma das grandes inspiradoras da magna carta portuguesa de 1911, o simpósio convidou muitos professores e investigadores do País irmão (de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Rio Grande do Norte, etc.), homenageando também um grande constitucionalista, Paulo Bonavides, professor emérito da Universidade Federal do Ceará, com a atribuição do título de pesquisador honorário do Instituto promotor da iniciativa. Paulo Bonavides é, com efeito, uma referência nos estudos constitucionais mundiais, defensor do constitucionalismo de princípios, paladino dos direitos fundamentais e do Estado democráticos e social de Direito. Proferirá uma conferência sobre a evolução dos Direitos: As cinco gerações dos Direitos fundamentais e a ideologia.

Além de professores e investigadores de algumas das melhores universidades brasileiras e portuguesas, participarão Maria Protopapas-Marneli, da Academia de Atenas, e Henri Pallard, da Laurentian University / Université Laurentienne, do Canadá. Sendo o público-alvo estudantes, juristas, historiadores, sociólogos e todos os interessados em cultivar-se histórica, jurídica e politicamente.

Pelo lado português, fazem parte do programa, além de Professores da Faculdade de Direito do Porto e de outras escolas de Direito nacionais, nomes como os dos historiadores Dom Manuel Clemente, bispo do Porto, António Reis, antigo grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Manuel Filipe Canaveira e Manuel Loff, os sociólogos Luís Salgado de Matos, autor de uma recente análise profunda das relações entre o Estado e a Igreja na I República, e Fernando Pereira Marques, autor de um recente estudo sobre o atraso português, os cientistas políticos José Adelino Maltez e João Relvão Caetano, o historiador-jurista Luís Bigotte Chorão, autor de um recente estudo sobre a Justiça na I República, o jurista e sociólogo José Preto, os professores de filosofia Norberto Cunha e António Pedro Mesquita, e o membro da Academia das Ciências e professor de filosofia do direito António Braz Teixeira, entre outros. Os constitucionalistas Gomes Canotilho e Paulo Ferreira da Cunha, director do Instituto promotor da iniciativa, farão as conferências de síntese finais. O ciclo de colóquios será aberto pelo Magnífico Reitor da Universidade do Porto, Marques dos Santos, e pelo Director da Faculdade, o criminólogo Cândido da Agra, que também proferirá uma conferência.

Uma das inovações dos colóquios é que eles privilegiarão o debate, havendo poucas conferências e muitas mesas redondas de debate, entre os participantes e com o público.

A entrada é livre, sendo recomendável contudo a inscrição para a Faculdade: ssilva@direito.up.pt.

Manifesto pelo Sonho (III/V)

30/09/2011

V. A Ditadura do Educativamente Correto

O educativamente correto, ditadura subtil que todos exercem sobre todos, em grande medida impede que nos confessemos, até a nós mesmos. O que mais se ouve nos corredores das escolas é que tudo vai bem, não podia estar melhor.

Todos (digamos: quase todos) estão a trabalhar muito (desumanamente, no limite da impossibilidade física, ou material, ditada pela natureza das coisas), mas ninguém sequer se queixa, senão à boca pequeníssima, e com aquele misto de exaustão e de deleite por se ser herói do trabalho, novo stakanovista.

Ninguém acha que haja problemas com nenhum dos outros intervenientes no processo educativo – pessoal ou sistémico. É proibido haver problemas. Quem os tivesse seria um inadaptado, mau pedagogo, mau colega, mau funcionário, mau trabalhador, e também, obviamente, de tão enorme exceção à regra, um marciano, quiçá um louco.

VI. Frenesim Laboral

Quem questiona as cada vez mais frequentemente mudadas regras do jogo e a cultura da tecnocracia e da vertigem, do tudo para ontem, das reuniões e das aulas, e dos artigos, dos livros e das teses em simultâneo, em vários pontos do país (e do estrangeiro, para alguns – agora com videoconferência, pois então…), e as catadupas de convites (e “cobranças”), vários telefones a tocar ao mesmo tempo de dia e de noite e mensagens a chover num telemóvel que não dorme e num portátil que não se cansa e nunca fecha? E os mil “patrões” de dentro e de fora a exigir mais, sempre mais?

Findas as aulas, as noites não têm fim em trabalhos que têm de ser preparados para o dia seguinte, e entretanto ainda uns tantos alunos e colegas solicitam mais coisas por email. Os fins de semana não servem para descansar nem ver que há mais mundo além da escola: mas a tentar, ofegantemente, não deixar que o “expediente” não se empilhe ainda mais. E as férias servem para isso, e para tentar ler mais teses (sempre chegam cada vez mais, e muitas em estado bruto, que é preciso inimaginavelmente corrigir) e ir escrevendo alguma coisa…  Acabou a vida há muito para alguns. O professor é um factotum, e não tem a sabedoria de Fígaro.

Muitos sofrem amargamente estes tempos de insana mania da produtividade, exaltação da agitação e da autopromoção, burocracia opressora, liderança indiscutível, culto da personalidade e espavento da subjetividade de quem tem cargos e/ou acredita que é génio.

Está longe de ser só na escola. Os que  têm bons, discretos, prudentes e moderados dirigentes ou patrões (ou patrons) poderão até parecer subservientes na sua sincera e merecida apreciação. Quem os tem que os estime e reeleja, se puder. Não sabe a sua sorte. Digo-o porque estou em maré de admirar os meus. E isso faz toda a diferença. Até na liberdade com que escrevo este artigo. Quase deixei – sinceramente – de ter asma, que é, grosso modo, falta de ar… ou ar que não sai, que não consegue sair…

Manifesto pelo Sonho (II/V)

29/09/2011

III. Pedagogias, Arcaísmos e Economicismos

É curioso como nunca se aplicam aos professores os critérios doces e garantísticos que se louvam (em muitos casos justissimamente) para os estudantes, e até para a geral gestão de recursos humanos empresarial. Nem os professores têm, que saiba, um provedor sequer; aqueles, sim. As grandes ideias modernas dos recursos humanos, da mediação dos conflitos, da pedagogia construtiva e inspiradora parecem parar quando se trata dos docentes: para eles vale só a velha burocracia, o processo disciplinar, a estigmatização?

Uma escola é uma grande orquestra. Vamos desprezar o tocador de bombo e o de ferrinhos? Todos teremos que ser primeiros violinos? Do mesmo modo que o diferente também não deve chocar ou ser discriminado, mas antes acolhido e integrado: as harpas, não têm lugar? Porque o sóbrio pianista é placidamente aceite e a etérea harpista nem por isso? Preconceitos. Preconceitos.

Quando, já quarentão e doutor, fui cursar a minha terceira licenciatura (onde tive, aliás, professores brilhantes) descobri o que antes nunca tinha percebido: são úteis até os professores medíocres, que nos descansam da pressão das grandes ideias dos professores brilhantes.

O génio pode sufocar o aluno. São raros os professores geniais que conheci que eram populares entre os meus colegas alunos. Por um lado, pelas notas que não esbanjavam, mas sobretudo porque – como é óbvio – não eram percebidos (em todos os sentidos da palavra). E não faziam, de todo não faziam, o hoje imprescondível marketing pessoal.

Ora as coisas complicadas nem sempre se podem banalizar. E quando o professor mais talentoso (já não falo do genial) começa a descer o nível a ver se é entendido, vão logo dizer que não dá matéria, que só conta anedotas… E na verdade ele está desesperadamente a ver se encontra nos imaginários dos estudantes uma amarra qualquer pela qual eles o entendam. Mas é muito difícil, porque está derrotantemente comprovado que nem as narrativas mais básicas são de todos conhecidas: há quem não saiba o que significa MFA, ou quem foi Otelo Saraiva de Carvalho (talvez um “hotel de luxo”… – está no youtube), não saiba a história do capuchinho vermelho, e seja indiferente a Harry Potter.

Contudo, para muitos dos formatados (burocratas e mesmo estudantes, ai de nós), os medíocres é que seriam os bons professores… E os inspirados, criativos, esses que exigem e subvertem a modorra dos dias, meros lunáticos a vexar, punir e até expulsar. Só quando esses ganham prémios e se capatapultam para a televisão é que passam a ser reconhecidos (e se o prémio não for muito badalado, nem isso: só serve para a inveja dos demais)… Mas estas distinções, como se sabe (mas não se reconhece) ocorrem apenas a uma percentagem ínfima dos que as mereceriam, e sabe-se se lá se não bafejam também alguns pelo simples movimento aleatório da roda da fortuna, mais ou menos oleada por epifenómenos.

Um dos graves erros da Escola (mesmo da pública, hélas!) é o ter-se mercantilizado e estar a adotar sem discernimento as regras desses mercados furiosos, cegos e iníquos, que estão agora tragicamente a mostrar o que valem, ao nível macro-. Mas enquanto a fúria da mão invisível já se vai vendo nas finanças, com repercussões na vida e no bolso quotidianos, ainda se não deu o salto mental que permitiria perceber que é essa mesma lógica que está a transformar a escola na guerra de todos contra todos, e por mais leis que tenha, faça e refaça, nela vigora já a lei da selva, que é a mesma do mercado descontrolado e desregulado.

IV. Pelo sonho é que vamos…

No plano material, a degradação da situação da classe não pode ser mais evidente. Mas não é só. Nem isso é, para nós, professores, que somos irrecuperavelmente idealistas, o principal. Nunca o foi. Esta época de crise até poderia ser momento para, mais uma vez, a classe mostrar a sua abnegação. O problema é que os professores estão exaustos e desiludidos. Embora haja terríveis espíritos de combate que sem deixarem de ser lúcidos nunca desistem. Neles o sonho não fica beliscado pela amargura dos factos. Num bom sentido, podem dizer: “tanto pior para os factos!”.

Presumo que não seja educativamente correto citar A Pedra Filosofal, de António Gedeão. Não é, certamente, pelo menos, culturamente correto, mas por isso mesmo, e porque o poema tem toda a razão, lembremos só o final: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida./Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/ entre as mãos de uma criança.

O principal é o sonho, porque “pelo sonho é que vamos”. Pelo sonho é que para aqui viemos. Como conta de um colega Sebastião da Gama, temos a certeza que a maioria de nós, e esmagadora, até se espantou quando, depois de se ter divertido tanto a dar aulas (e divertir é dizer muito pouco: porque se trata da realização de uma vocação – é como a plenitude da realização do valor), viu que ao fim do mês também tinha ganho algum vil metal. O sonho era grande. Como vão os nossos sonhos? Essa é a grande questão.

Quem não for professor por sonho será o mais infeliz dos homens. Ele nos mantém vivos ainda. Mas corre riscos sérios de se desvanecer…

Manifesto pelo Sonho (I/V)

28/09/2011

(Texto de Paulo Ferreira da Cunha originalmente publicado no site do SNESup)

Às vezes, secretamente, rio da inutilidade dos ensaios; dos artigos;  das palestras (…)
Sebastião da Gama – O Segredo é Amar, 2.ª ed., Lisboa, Ática, 1969, p. 92.

I. Ensino Superior e Crise Atual

Ainda saberemos parar? É tempo de parar para pensar, e agir consequentemente. Todos dizem que crise é oportunidade, e até citam o chinês. Pois bem: pensemos para agir, aproveitemos essa magnífica oportunidade, porque grande crise está aí. E já há quem fale até de coisas que mais valia nem mencionar sequer, não vá o diabo ouvir. Que o diabo atentamente escuta os nossos mais perversos pensamentos. E faz quase sempre a vontade aos profetas da desgraça.

Alguns dos piores vaticínios já ocorreram: significativos cortes nos ordenados, e agora, sob forma de imposto, corte no subsídio de Natal, aliás parte integrante do vencimento, embora pago uma vez por ano. O que mais se seguirá?

A balança pesa só para um dos lados. Não é que nos queixemos. Tanto gosta o professor do que faz, tão genuinamente ama o ensino que, como na I Carta aos Coríntios, XIII, 7, tudo suporta. Mas ensombra-nos uma nuvem de tristeza ferida por tão pouca reciprocidade e tão escasso apreço (mesmo social e político) a uma classe em geral bem preparada e muito devotada, que, pela sua capacidade, poderia ter ido ganhar dinheiro, poder e prestígio noutras funções e veio afinal para estas, renunciando a tudo, mas não ainda à dignidade. E a quem legitimamente choca o ver-se rebaixada por quem não tem o direito de o fazer, nem qualquer tipo de autoridade para tanto.

A salubridade e o grau de civilização de uma sociedade têm também este indicador capital: o do apreço que o poder e o homem da rua (para não falar nos alunos) têm pelos seus professores. E é um círculo vicioso: se prezardes os vossos professores, mesmo os mais medíocres tenderão a imitar o alto ideal que deles se faz; se os desprezardes, tereis professores ainda menos dignos, porque sem modelos e sem um prestígio a defender.

II. Professores sob Suspeita

Instalou-se e chegou a induzir-se um clima de suspeita contra o professor. Não só o universitário. E falsa ou manipuladamente alegando-se mordomias e impunidades, com ingenuidade (será?) se acredita agora como verdade indiscutível que se dectarão os incompetentes e preguiçosos com novas avaliações ainda. Como se os docentes não fossem desde sempre (desde que nos conhecemos, pelo menos) já avaliados diuturna e rigorosamente (por vezes torturadamente) por tudo e por nada (e até por quem os não poderia realmente avaliar, por falta de competência). E tudo isto como não se soubesse em geral muito bem, em cada caso e Casa, who is who… Mas, quem guarda os guardas?

Agora instituem-se complexíssimas e em geral exigentíssimas (para o comum dos mortais: pois sempre alguns passam nas malhas – pensada lei, pensada malícia) avaliações ditas “do desempenho”. As quais, com o congelamento de tudo (ou quase) quanto é despesa adicional ao mínimo dos mínimos, parece que terão apenas uma função simbólica, pois não se reverterão em qualquer benefício palpável ou sonante, sequer para os happy few por elas premiados.

Para alguns, que não se movam (ou moviam: porque parece que se pensa em retroatividade na aplicação de critérios) bem nas malhas dos múltiplos itens, será agressão simbólica, estigmatização. Mas, com a liberalização geral do despedir que aí vem (e que, embora ainda subtilmente, já nos afeta), como não utilizar essa avaliação, para o vir a justificar? Alguns advogam já o despedimento automático dos menos classificados, ainda que o sejam positivamente. Isso seria sinal de excelência e competitividade.

Manifesto pelo Sonho (I/V)

28/09/2011

(Texto de Paulo Ferreira da Cunha originalmente publicado no site do SNESup)

Às vezes, secretamente, rio da inutilidade dos ensaios; dos artigos;  das palestras (…)
Sebastião da Gama – O Segredo é Amar, 2.ª ed., Lisboa, Ática, 1969, p. 92.

I. Ensino Superior e Crise Atual

Ainda saberemos parar? É tempo de parar para pensar, e agir consequentemente. Todos dizem que crise é oportunidade, e até citam o chinês. Pois bem: pensemos para agir, aproveitemos essa magnífica oportunidade, porque grande crise está aí. E já há quem fale até de coisas que mais valia nem mencionar sequer, não vá o diabo ouvir. Que o diabo atentamente escuta os nossos mais perversos pensamentos. E faz quase sempre a vontade aos profetas da desgraça.

Alguns dos piores vaticínios já ocorreram: significativos cortes nos ordenados, e agora, sob forma de imposto, corte no subsídio de Natal, aliás parte integrante do vencimento, embora pago uma vez por ano. O que mais se seguirá?

A balança pesa só para um dos lados. Não é que nos queixemos. Tanto gosta o professor do que faz, tão genuinamente ama o ensino que, como na I Carta aos Coríntios, XIII, 7, tudo suporta. Mas ensombra-nos uma nuvem de tristeza ferida por tão pouca reciprocidade e tão escasso apreço (mesmo social e político) a uma classe em geral bem preparada e muito devotada, que, pela sua capacidade, poderia ter ido ganhar dinheiro, poder e prestígio noutras funções e veio afinal para estas, renunciando a tudo, mas não ainda à dignidade. E a quem legitimamente choca o ver-se rebaixada por quem não tem o direito de o fazer, nem qualquer tipo de autoridade para tanto.

A salubridade e o grau de civilização de uma sociedade têm também este indicador capital: o do apreço que o poder e o homem da rua (para não falar nos alunos) têm pelos seus professores. E é um círculo vicioso: se prezardes os vossos professores, mesmo os mais medíocres tenderão a imitar o alto ideal que deles se faz; se os desprezardes, tereis professores ainda menos dignos, porque sem modelos e sem um prestígio a defender.

II. Professores sob Suspeita

Instalou-se e chegou a induzir-se um clima de suspeita contra o professor. Não só o universitário. E falsa ou manipuladamente alegando-se mordomias e impunidades, com ingenuidade (será?) se acredita agora como verdade indiscutível que se dectarão os incompetentes e preguiçosos com novas avaliações ainda. Como se os docentes não fossem desde sempre (desde que nos conhecemos, pelo menos) já avaliados diuturna e rigorosamente (por vezes torturadamente) por tudo e por nada (e até por quem os não poderia realmente avaliar, por falta de competência). E tudo isto como não se soubesse em geral muito bem, em cada caso e Casa, who is who… Mas, quem guarda os guardas?

Agora instituem-se complexíssimas e em geral exigentíssimas (para o comum dos mortais: pois sempre alguns passam nas malhas – pensada lei, pensada malícia) avaliações ditas “do desempenho”. As quais, com o congelamento de tudo (ou quase) quanto é despesa adicional ao mínimo dos mínimos, parece que terão apenas uma função simbólica, pois não se reverterão em qualquer benefício palpável ou sonante, sequer para os happy few por elas premiados.

Para alguns, que não se movam (ou moviam: porque parece que se pensa em retroatividade na aplicação de critérios) bem nas malhas dos múltiplos itens, será agressão simbólica, estigmatização. Mas, com a liberalização geral do despedir que aí vem (e que, embora ainda subtilmente, já nos afeta), como não utilizar essa avaliação, para o vir a justificar? Alguns advogam já o despedimento automático dos menos classificados, ainda que o sejam positivamente. Isso seria sinal de excelência e competitividade.

Pensada Lei, Pensada Malícia – a propósito das avaliações universitárias em preparação

12/02/2010

Aos nossos « Amis, bien que collègues »,

como já se diz no mundo francófono, e não quereríamos traduzir

numa universidade de competição feroz e injusta.

Este estudo não se baseia em bibliografia adequada, nem se apoia em estatísticas, nem estudos de campo, validados e verificados. Não é educativamente correcto e, como facilmente se verá, nem sequer é escrito em « eduquês ». É outrossim, e apenas, fruto em escrita apressada (as avaliações de centenas e centenas de estudantes em curso, em todos os ciclos, não dão tempo para mais – mesmo já quase não se dormindo e já se tendo prescindido há muito de viver) de observação participante durante já bastantes anos de experiência em dedicação nem sempre legalmente « exclusiva », mas na verdade total, vivencial, à Universidade. Escrita apressada, mas ideias de há muito amadurecendo e tornando-se-nos muito perigosamente claras. Claríssimas.

A sua única vantagem será esta : falar livremente, coisa que pode vir a não ser possível a breve trecho para muitos, por medo das novas avaliações (porque avaliações sempre as houve), que apressadamente e sem tempo para ouvir os interessados (nem para eles ponderarem) se estão a preparar. Sinal então de que não temos medo ? Não. Sinal de que o temos, sem dúvida, mas convicto de que, no nosso caso, continua a não valer a pena fingir… Não somos capaz. Porque a Universidade se nos tornou segunda natureza… e não poderíamos mentir, calar, nem afivelar uma máscara para salvar um emprego (ou uma nota), sacrificando a dignidade. Porque, segundo uma velha tradição, um doutor é uma testemunha da verdade… Do que ele pensa ser a verdade. E disso deve dar testemunho.

Temos dito, e repetimos. Nisto de critérios de avaliação, todos, de todo o tipo, e sobretudo na Universidade, o problema é, antes de mais : quem guarda os guardas ? Como podem colegas julgar colegas, com imparcialidade ? E como podem os estudantes, que são inegavelmente parte interessada (e por vezes magoada, a clamar vingança por se crerem injustiçados, ou, pelo contrário, com simpatia por terem sido bafejados pela « sorte »), julgar com conhecimento, competência e imparcialidade ? Para mais, muitas vezes, utilizando inquéritos complexos, nem sempre objectivos, e a que podem responder tanto assíduos como faltosos, quer com aproveitamento quer sem ele, etc., etc.

Pode pensar-se que a solução para a obtenção da objectividade está em que os avaliadores sejam muito estritamente vinculados por normas rígidas e minuciosas. Nunca pior erro. Quanto mais complexa e pormenorizados forem os critérios, mais possibilidades de fuga e de manipulação. Sobretudo se se tratar de critérios que exigem aos docentes mais habilidades, ditas « competências »… na verdade, distraindo-os das suas evidentes e elementares funções – ensinar e investigar.  Sempre um docente que desagrade pessoalmente ao avaliador terá um currículo com um (naturalmente vários) calcanhares de Aquiles, que servirão para, agigantados, se dizer que ele nada vale. Sempre um docente que se quer beneficiar terá esta ou aquela virtude para, agigantada também, se dizer que é um génio…

Ao definirem grelhas de critérios, as entidades por tal responsáveis têm, normalmente, duas tendências contrárias : ou se enquistam num modelo ideal muito concreto de professor / investigador, normalmente decalcado num tipo de carreira concreto, de uma área concreta (não se imagina os preconceitos que há em cada área !) ; ou então procuram uma abrangência enorme, procurando fazer caber nos critérios tudo o que os professores /investigadores, de todas as áreas de que tenham conhecimento podem fazer.

Em ambos os casos, os critérios resultantes são empobrecidos e podem resultar em muito grandes injustiças, mesmo arbitrariedades.

Evidentemente que avaliar um músico por patentes, um economista por exposições, um escultor por concertos, ou coisas menos evidentemente descabidas, mas quase (por exemplo : a mania do apoio à comunidade ou dos serviços é muito frequente – mas há áreas em que a comunidade confia nos serviços universitários e outras em que prefere os serviços públicos ou privados não universitários), é muito errado e produz necessariamente prémio para actividades marginais e castigo para quem trabalha na sua área, no mainstream da sua área.

Já se sabe que nem todos podem ter patentes, nem todos podem ter apoio ou serviços à comunidade, nem todos, mesmo, devem ter trabalho de gestão, e não está provado que todos devam ser obrigados a fazer programas televisivos, ou a  elaborar manuais, ou sequer que devam ter popularidade junto dos estudantes. Este último ponto é relevante, e perigosa a condescendência, por receio que se presuma logo impopularidade, melhor, anti-pedagogia. Mas a verdade é que nos inquéritos pedagógicos os interessandos docentes deveriam ter participação, e tudo deveria ser muito bem ponderado. Há inquéritos que requerem coisas objectivas, que passam a ser avaliadas subjectivamente (como quando se pergunta pela assiduidade dos docentes), e outros inquéritos que valorizam (presume-se) factores psicológicos do docente que podem até desagradar aos discentes (como quando se pergunta se os docentes dão as aulas « com entusiasmo » : saltam e riem de contentamento na pista, perdão, no « estrado » ?).  É um poder excessivo dar a apenas alguns a elaboração desses inquéritos, e mesmo transferir isso para « especialistas » é muito perigoso, porque todos, todos mesmo, transportam consigo os conceitos e preconceitos da sua própria área, o que não deixa de ocorrer com os « especialistas » em causa.

Mas nem só é errado avaliar com base em preconceitos sobre o que deveriam todos fazer. O erro simétrico é não privilegiar um grupo de competências e actividades mais próprio de uma área – normalmente as privilegiadas são as científicas puras e duras, ou as de consequências económicas e tecnológicas, com claro prejuízo das ciências sociais não económicas, das letras e do direito e afins, só contando muitas vezes nas artes (plásticas, dramáticas, musicais) o que tem visibilidade pública e económica. Assim, o erro será então colocar tudo, todos os itens que ocorrerem – obrigando os docentes / investigadores a uma dispersão de actividades que fará que só muito raros espíritos de grande flexibilidade (e sorte) possam ter cotação em todos os itens, ou mesmo numa boa parte deles. O que tornará a avaliação infernal se for anual…

Avaliar professores / investigadores é pior que pesar oiro. Muito mais delicado. E não se tem balança de Minerva que o faça. O risco é o nariz do colega desagradar e, com base numa muito complexa tabela, sempre encontrar forma de o penalizar, privilegiando o amigo. Pensada lei, pensada malícia – já diziam os antigos. Pensamos que, quanto mais complexa for a grelha, mais fácil será subverter o valor e a qualidade real e julgar pro domo.

Deve partir-se de um princípio garantístico de desconfiança ante a avaliação. Devem criar-se mecanismos de recurso da mesma, para entidades o mais distantes possível dos avaliadores. Devem criar-se formas de assegurar que a avaliação seja feita por pessoas competentes e da área específica dos avaliados, e com posição hierárquica superior, além de insuspeitos de favoritismo, relativamente a qualquer dos competidores. Porque de competição se trata. E feroz.

Na sua primeira avaliação, pelo menos, cada docente deveria poder apresentar, se quisesse, um texto sem limite de páginas, em que expusesse o seu perfil, em que comentásse a sua própria carreira, em que justificasse a classificação a que se julgasse com direito. E esse texto, com o currículo, serviria de uma avaliação contraditória pública, caso não houvesse coincidência entre a nota esperada e a atribuída.

Cremos, quanto ao estabelecimento de uma tabela ou grelha em concreto que ela teria que ser estabelecida para cada sub-área do conhecimento (não bastará certamente a área em geral, mas, tendencialmente ao menos, por disciplinas… Um juslaboralista não pode certamente julgar bem um especialista em direito marítimo ; provavelmente um especialista em marketing não julgará de forma conveniente um contabilista ; um helenista não poderá ser juiz de um germanista ; um medievalista não poderá pesar bem o trabalho de um arquéologo da pré-história, um fitólogo não será capaz de avaliar bem um entomologista, um cardiologista um psiquiatra, etc.).

Por outro lado, é perigoso fiarmo-nos no critério da publicação em revistas. Por muito que custe ao educativamente correcto, pelo menos em áreas em que as bibliografias falam muito eloquentemente da orientação metodológica e até ideológica, como as de letras, humanidades, o direito, etc., mesmo com blind referees pode haver escolhas e recusas por afinidades mais ou menos electivas que não são científicas. É absolutamente humano. Mais ainda : há escolhas com preconceitos por áreas culturais, e que poderão até prejudicar muito a investigação. Se só contam revistas de ambiente anglófono, que poderão fazer, por exemplo, a filosofia continental, as culturas e literaturas não anglófonas, e os direitos nacionais ? Os juristas não podem escrever em inglês e publicar em revistas estrangeiras artigos sobre direito português. Ninguém quer saber disso, e contudo parece que tal tem interesse para o País, ou não terá ?

Do mesmo modo, os convites para júris dependem de ser estar ou não « no circuito ». Ou o rol das citações que alguém tenha da sua obra por outros colegas.  Não se pode avaliar excessivamente coisas que dependem não tanto da qualidade intrínseca, mas da popularidade (inquéritos dos alunos) ou da rede de contactos e simpatias (júris, publicações em revistas, citações). E não se deve contabilizar excessivamente o que depende de vocação não docente ou de investigação, como é a gestão académica em todas as suas vertentes. A não ser que o docente tenha optado por ser sobretudo gestor.

O critério do número de teses, por exemplo, é outro artificial e altamente falível. Há escolas em que há poucas teses, e há outras em que são multidão. Há mesmo casas que recusam teses e outras que não. Há critérios de qualidade que levam docentes a recusarem orientações, e poderá haver demagogia na aceitação de tudo o que vier á rede, e pior : pode haver (e diz-se que já vai havendo) formas de alguns se insinuarem e posicionarem como grandes monopolistas ou oligopolistas das teses. Em certos casos, orientar teses em demasia (pensamos – nas áreas que conhecemos – que mais que 6 ou 7 por ano é desastroso para a necessária assistência : o dia tem 24 horas, e tem que se fazer muito mais coisas além dessas orientações) pode ser sinal negativo, e não positivo. Cremos que se poderia encontrar um limite mínimo (umas duas teses por ano parece razoável), mas não bonificar ninguém para além da meia dúzia de teses por ano. Será que se pretende realmente qualidade ou apenas um critério de industrialização ?

Cremos, assim, que a melhor solução seria que cada docente / investigador definisse previamente o seu próprio perfil, dentro de uma meia dúzia de tipos (professor-pedagogo, professor-investigador, professor-gestor, professor-de interface com a cimunidade, com tipos mistos também), sendo que qualquer dos tipos em causa poderia ter o máximo da avaliação, com critérios diferentes.

Assim, não se iria penalizar um professor pedagogo por ter pouca investigação. Definido um mínimo (porque todos têm que investigar), o que se avaliaria, isso sim, seria a sua capacidade de dar boas aulas e de fazer boa divulgação… Já o professor gestor não seria incomodado por ser menos pedagogo, ou por não fazer tanta investigação. Teria também que ter mínimos (senão seria só gestor). Mas o que interessaria seria a avaliação do seu desempenho (aí sim, por inquérito secreto a docentes, funcionários e estudantes, combinado, quando fosse o caso, com informação do seu superior hierárquico).

No caso do professor investigador o que mais contaria seria a publicação de livros, ou registo de patentes, ou outra forma adequada à sua área. Com o maior cuidado para não se beneficiar um bafejado pela sorte política ou por ter um círculo alargado de relações. Os editores não costumam querer perder dinheiro – esse costuma ser um bom critério (até de impacto, pela aquisição dos livros ; reedições seriam bom sinal). Não contariam, pois, as edições de autor, salvo casos excepcionais.

Há sempre casos excepcionais. A avaliação deveria ser  feita com tempo (o ideal seria fosse feita de três em três anos – ou mais: num ano vê-se pouco o fruto do trabalho de longo curso do ensino, da investigação e até da gestão e do apoio à comunidade), com base num muito breve relatório de cada um para tal efeito, e à nota dada poderia haver réplica – como aflorámos já. E, evidentemente, o ónus de não dar nota máxima seria dos avaliadores, que a cada um deveriam apontar as deficiências curriculares, as quais poderiam ser rebatidas na réplica, a apreciar por um órgão de recurso. Avaliação deve ser (não é isso que se diz para a avaliação dos estudantes ?) pedagógica e não contribuir para frustrar os avaliados, mas para os incentivar. De há muito que reivindicamos ao menos os mesmos direitos dos estudantes.

Sobretudo não seria permitido que se objectassem minudências. A avaliação tem como suporte tópicos, mas é sobre uma pessoa, normalmente uma pessoa que sacrifica a sua vida à Universidade, e que não pode estar dependente do capricho do avaliador. O qual, no limite, pode ser até um concorrente seu… e julgar, afinal, em causa própria.

Se num ano o professor não publicou nada, tem de ser ver o seu historial. Pode ser que esteja a preparar obra que não leve apenas um ano a realizar. Se há dez anos que não regista uma patente, será que se tem de entender que é uma nulidade ? Haverá sempre inspiração para um músico criar novas peças todos os anos ? E um professor de desporto, com mais idade, terá de bater os records olímpicos à beira da reforma ? Há factores imensos a ter em consideração. Não se vai pedir a um recém-admitido o mesmo que se pede a alguém no auge da carreira (e esse auge é diverso para as várias pessoas)… Devem, assim, estabelecer-se factores de correcção plurianual e de compensação entre critérios. Com o maior cuidado.

Quem decobrir a cura para a SIDA ou o câncer está desculpado de ter mau génio e de os alunos não gostarem dele ou dela. Quem escrever o romance do século pode nunca ter pertencido a nenhum órgão de gestão. Quem gere uma Faculdade com superavit (mas sem avareza) pode não escrever  senão um artigo de dois em dois anos, ou expor um quadro de três em três. Quem é adorado pelos alunos como grande comunicador pode não descobrir a pólvora de novo.

Haja avaliadores com bom senso, e capacidade para aplicar critérios muito vastos. Quanto mais critérios se impuserem, mais avaliadores virão desculpar-se dizendo que tinham as mãos atadas e deram as notas que não queriam. E mais professores injustiçados virão dizer que foram preteridos pelo colega ao lado, por causa dos seus lindos olhos…

Avaliar é muito importante, porque seria uma forma de introduzir mais justiça na Universidade. Mas só se for mesmo para introduzir justiça. E, como dizia Santo Agostinho, só é possível haver justiça com pessoas justas. Tememos que a nossa sociedade e a nossa Universidade, cada vez mais egoístas e competitivas, cada vez mais amorais, não tenham ainda aprendido o necessário distanciamento e imparcialidade.

Paulo Ferreira da Cunha