Posts Tagged ‘Nuno Crato’

O ministro do rigor

15/02/2012

Quando Nuno Crato fazia as suas incursões pelos mídia a criticar o estado da educação, exigia rigor e trabalho. Nuno Crato, Ministro da tutela esclarece que o rigor  de que fala é orçamental.

Quando o trabalho das universidades e politécnicos, quer na componente investigação, quer na componente formação, é comprometido pelos sucessivos cortes orçamentais, quando as universidades e politécnicos optam por atropelar direitos laborais, mas também o processo pedagógico, e asfixiar a investigação em nome do rigor orçamental, demonstra-se que Nuno Crato não é pelo rigor no trabalho.

A última moda, pelo menos já reportada na Universidade do Algarve, com uma variante interessante na Universidade dos Açores, é proibir  os Conselhos Científicos de nomear júris externos para mestrados e/ou doutoramentos. No caso dos Açores isso passa-se para júris que sejam aposentados. A razão parece ser não querer suportar as despesas com as deslocações e a participação nas reuniões e provas. A consequência é grave para o rigor das provas académicas, limitadas a júris internos, para a independência académica condicionada às conjunturas locais, e à troca de ideias, propriedade intrínseca ao conceito de universidade.

Os reitores que submetem o papel e a função das suas universidades aos cortes orçamentais são só fracos líderes, inconscientes da sua missão, ordeiramente comprometidos em atropelar quem podem e sem a coragem de se indignar e entregar o ceptro e as chaves da casa ao responsável da tutela, que em última análise confirma a sua nomeação.

Quanto a este ministro, que se apresentava como o homem do rigor, esclarece-se e completa-se, é o ministro do rigor, do rigor mortis para o ensino superior português.

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A intolerância de ponto

06/02/2012

A questão da retirada da tolerância de ponto na segunda-feira de Carnaval, já apelidada de “agressão laboral“, tem particular relevância no meio do ensino.

A medida tem impacto inegável à volta do sistema de ensino básico e secundário, uma vez que a tradicional ponte e tolerância da quarta-feira de cinzas, permitia uma mini-paragem. Tanto quanto percebo, a esmagadora maioria das escolas realiza na semana anterior ou no final da semana de Carnaval as suas reuniões intercalares, e dispensa a generalidade dos professores (que fizeram horas extras na semana anterior em função das reuniões depois do horário de trabalho) e os estudantes, que ficam assim a cargo das famílias.

Quando uma grande quantidade de trabalhadores tinha também dispensa nesses dias, o impacto social desta paragem dos jovens (obviamente, correspondentes a filhos de gente em idade activa) era reduzido. Algumas instituições privadas acertavam-se pela mesma bitola, havia sempre alguém que tinha tido tolerância de ponto e que resolvia o problema.

A decisão de retirar este dia de descanso, acrescenta mais um aos dias anuais de trabalho, depois de já terem sido retirados directamente 7 (4 feriados e 3 dias de férias). Mas acrescenta mais entropia que qualquer um dos outros sete dias perdidos. Talvez não tanto no Ensino Superior, onde em muitos casos sairá mascarada pela Época de Exames do primeiro semestre, muito menos no sistema de investigação, onde sabemos que tantas vezes estas tolerâncias de ponto são vistas como mais uma oportunidade de trabalhar mais, mas muito nos outros níveis de ensino e com muito graves consequências na organização da vida, do tecido produtivo (que é feito de cidadãos na chamada “vida activa”) e da sociedade.

A decisão é precipitada e as suas consequências não foram medidas. A prová-lo está o incumprimento das disposições que prevêem a definição das “pontes” até 15 de Dezembro do ano anterior.

Também aqui, como em tantas outras coisas, o ministro que tutela a Educação, e que por acaso é aquele que tutela o cerne da área de trabalho a que corresponde o nosso sindicato, perdeu a oportunidade de mostrar algum discernimento.

A cair a “ponte” talvez fosse interessante que os nossos colegas do básico e secundário tivessem alguma coisa agendada para esses dias que os aliviassem dos serões que andaram a fazer nas vésperas. Uma simples questão de planeamento, de capacidade de gestão do imprevisto (que o Ministro parece não conhecer o que se passa no Conselho de Ministros) e de sensibilidade para a área que se tutela.

Concentração de docentes e investigadores e Conselho Nacional: 29 de Outubro de 2011

01/11/2011

Colegas,

Decorreu no passado sábado ao início da tarde uma concentração de docentes e investigadores frente às instalações do Ministério da Educação e Ciência, na avenida 5 de Outubro, que se constituiu como uma das primeiras acções visando chamar a atenção para o desrespeito implícito nas propostas incluídas no Orçamento de Estado para 2012 que afectam gravemente as remunerações dos docentes e investigadores, o financiamento das instituições de ensino superior e até a capacidade de decisão destas. A todos os Colegas que participaram nesta acção simbólica aqui deixamos uma palavra de agradecimento.

Imediatamente após a concentração decorreu aquele que foi um dos mais participados Conselhos Nacionais do SNESup. Desta reunião resultou a aprovação por unanimidade e aclamação da seguinte proposta:

Considerando a gravidade quer efectiva, quer potencial, para os docentes do ensino superior e investigadores, para as comunidades académicas no seu conjunto e para as próprias instituições das medidas que integram a proposta de Orçamento do Estado para 2012, e que estas põem em causa o direito à educação,
 
O Conselho Nacional do SNESup, reunido em 29 de Outubro de 2011:
 
1. Autoriza a emissão de pré-aviso de greve para o dia 24 de Novembro em defesa do direito à remuneração, do cumprimento dos Estatutos de Carreira, da estabilidade do financiamento e da autonomia das instituições do ensino superior e sistema científico;
 
2. Recomenda que o pré-aviso seja redigido de forma a permitir, conforme as condições concretas, optar por uma paralisação total ou selectiva das actividades previstas para esse dia;
 
3. Aponta para a realização de contactos com a comunicação social e para uma participação organizada nas concentrações previstas para esse dia pelas confederações sindicais;
 
4. Apela à organização, durante todo o ano lectivo, de dias de protesto e indignação nas instituições que recebam a visita de  membros do Governo, e de acções de solidariedade para com  os colegas que venham a ser especialmente atingidos pelas consequências das medidas anunciadas;
 
5. Incumbe a Direcção do Sindicato de organizar até Janeiro de 2012 uma Jornada de Luta pela Autonomia e Qualidade do Ensino Superior, com expressão a nível nacional, Jornada esta que pode continuar durante o ano de 2012.

Estas são assim, Colegas, orientações claras no sentido de darmos a nossa resposta à grave situação criada ao Ensino Superior e Ciência e para as quais contamos com a colaboração de todos.

Saudações Académicas e Sindicais,

A Direcção do SNESup
Em 31 de Outubro de 2011

um torniquete

27/10/2011

“Não há dinheiro, temos que cortar”

“Há que acabar com o desperdício”

back to the basics

Palavras retiradas do mantra que nos governa.

Traços do ambiente que nos pretende preparar para tudo aceitar.

Na verdade, palavras ocas.

Se entendermos que o memorando da Troika serve de referencial ao ataque ao Estado, a verdade é que Nuno Crato é o Ministro que proporcionalmente mais corta. Corta mais do triplo do que a fidelidade ao memorando impunha. Corta muito, corta demais.

Tínhamos já a ideia de que a profundidade das ideias de Crato para a Educação não supera a que se pode formar a ouvir uma conversa na paragem de autocarro ou uma algaraviada do taxista lá do bairro. Crato é, no que concerne a educação, uma espécie de homem do cliché. É vazio e perverso o discurso do “back to the basics“, quando precisamente nunca conseguimos sair do básico nem adaptar o sistema de ensino à massificação que felizmente a democracia nos trouxe. E é esse um dos grandes dramas do sistema de ensino, e a razão pela qual muito há que nele investir até que se possa extrair resultados. A fuga a esse investimento cria um ensino a várias velocidades e a exclusão dos menos preparados, que não são necessariamente os menos dotados, esforçados ou interessados. A deriva da educação e do ensino para a esfera do financiamento privado promove as assimetrias e as desigualdades e desresponsabiliza o estado, todos nós, pelos resultados da escola.

A criação da ideia de que o Ensino Superior português vive no luxo, na redundância e no desperdício, é mal intencionada e serviu para preparar o caminho para o que se assiste. Há muito que o sistema vive em anorexia, cortando no essencial. Há muito que o sistema é subfinanciado. Agora, o ensino superior fará face a mais um corte brutal. Mais de 178,9 milhões de euros (220 milhões quando incluídas as Fundações), dizem os jornais. Quase tanto quanto o compromisso da Troika pedia de sacrifício a todo o sistema de educação. De 1140 para 917 milhões de euros: 20 % de queda de orçamento de ensino superior e acção social, relativamente a 2010…

Quando as dificuldades financeiras ameaçam afastar os jovens do caminho da qualificação, Crato introduz uma redução de cerca de 8% (de 70,9 para 65,7 milhões de euros) ao orçamento da Acção Social . O que está a ser desprezado não é o futuro de um conjunto de estudantes. É todo o princípio de que o futuro dos portugueses passa por quebrar o ciclo de dependência gerada por décadas de ignorância e obscurantismo. O tal obscurantismo elitista por que Crato tanto suspira, saudoso.

Para Crato, gastamos demais com a educação, o despesismo é grande e o esforço financeiro inútil. A verdade, é que o nosso país, padecendo de um défice atávico de qualificação, torna-se sob Crato o país da União Europeia com a menor despesa de educação (em percentagem do PIB). São números, Crato!

3,8% quando a média da UE é de 5,5%. Mesmo em 2010, antes do seu ataque à Educação, antes de ser posta em marcha a etapa final do processo de elitização do acesso à educação, a noss despesa andava pelos 5,0%. 10% abaixo da média europeia! Investíamos ainda menos do que devíamos. Agora, somos mesmo o lanterna vermelha no esforço pelo futuro.

Mas claro, Crato acha que se justifica, porque para ele há doutores a mais e não é preciso tirar um curso para trabalhar. É preciso é afastar os jovens do ensino superior, que não é para todas as cabeças… Talvez por isso tema fazer alguma coisa para mudar a maior obscenidade do ensino em Portugal e que consiste numa taxa de abandono escolar submundista. Continuaremos a ser um dos países ocidentais com mais baixa taxa de conclusão do ensino secundário. E lamentamos.

Mas estamos dispostos a fazer alguma coisa para deixar isto bem claro?

Agonia na Investigação

07/10/2011

Foi noticiado no Expresso, a 1 de Outubro, e volta a ter chamada de atenção através do esquerda.net e do artigo de opinião de Daniel Oliveira (Expresso, 6 de Outubro), que a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa comunicou, já a 22 de Setembro, que suspendeu bolsas e contratos de trabalho associados a projectos de investigação em curso. Em causa estarão cerca de 2 milhões de euros em atraso por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O sistema começa a colapsar e, rapidamente, se percebe que a retórica do apoio à investigação e à qualificação é só o discurso de circunstância de quem não pode dizer o contrário. Na primeira oportunidade os fundos atrasam-se, os apoios resvalam, a investigação sofre, como sofrerá o ensino superior incluído nos monstruosos cortes anunciados.

Não há caminho para fora da crise e do atraso que não passe pela alteração do paradigma de desenvolvimento e pela qualificação. A investigação, como o ensino superior, é instrumental para esse objectivo. Cortar aqui é cortar as raízes ao futuro.

um governo sem programa

30/09/2011

É muito significativo que mais de 100 dias depois da tomada de posse as entradas sobre o Programa do XIX Governo Constitucional ainda estejam entre as mais visitadas neste Fórum.

Tentando ler no vazio e na ambiguidade, muitos de nós prestaram-se a exercícios como este ou aquele.

Vamos percebendo que não há programa, não há ideia que conduza o governo no ensino superior e ciência. As estafadas narrativas da autoridade e do rigor revelam-se apenas clichés vazios e sem aplicação.

A realidade desafia a retórica. O ministro da autoridade recebe impotente os acampados do básico e secundário. Mesmo agitando os fantasmas da crise, da austeridade e da troika, e atacando o emprego docente, veremos até quando a ilusão cratina irá durar.

Cem dias de governo

28/09/2011

Consultei uma ‘timeline‘ de um jornal online sobre os  momentos mais assinaláveis dos primeiros dias de Governo. Sobre o Ministro da Educação quase nada.

Contudo, a 9 de Setembro o Expresso anunciou “Governo e ‘profs’ de acordo“. Logo no cabeçalho da notícia percebe-se que afinal Crato chegou a acordo com 7 dos 13 sindicatos que se apresentaram a negociação. Logo daí se entende que é forçado dizer que os ‘profs’ estão em acordo. Seria talvez melhor jornalismo informar que o Governo chegou a acordo com alguns sindicatos de professores, alguns dos quais representantes de escassas dezenas de docentes. Mais tarde fomos percebendo que o acordo negocial, que diz respeito a questões de avaliação de docentes do básico e secundário, continha logros, e que alguns dos que participaram se queixam agora da interpretação que foi dada ao pretenso acordo.

Sobre ensino superior, nada. Sobre investigação, nada.
No que nos diz respeito, os primeiros cem dias foram cheios de nada, uma nulidade.