Mais algumas palavras sobre Mário Bandeira, o SNESup e os movimentos sociais em geral

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Com a pressa de noticiar no seu número da segunda quinzena de Abril o falecimento de um colega ocorrido no mês seguinte, o InfoSNESup copiou, com leves alterações, sem pedido de autorização nem link, dois parágrafos do nosso texto sobre Mário Leston Bandeira. Quem venha aqui nos próximos meses ainda irá pensar que os plagiários fomos nós. E as alterações, afinal cortes, são reveladoras: saltaram as referências a “Greves” (o Mário ter-se-ia limitado a convocar reuniões sobre reuniões) a “Comissão Pró-Sindicato” (ter-se-ia limitado a fazer carreira até vice-presidente da Direcção) , a “Associação Portuguesa do Ensino Superior” e a “Comissões de Docentes e Investigadores – CDI ‘s ”

Caros leitores

Sem o Mário Bandeira, sem as GREVES de que foi impulsionador, estratega e ideólogo, em 1989 e 1995, os professores do ensino superior e investigadores estariam hoje efectivamente muito mais mal remunerados e a profissão docente não teria conseguido ser relativamente atractiva nas últimas décadas. E o Mário foi mais longe: numa pesquisa do Diário Económico entre 1995 e 1999, encontrei uma entrevista em que, obtido o Acordo Salarial, chamava a atenção para a necessidade de conseguir uma vinculação adequada. Aposto que o Centro de Documentação do SNESup não a tem.

Sem o Mário, sem o apelo que fez à ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DO ENSINO SUPERIOR para que um dos seus dirigentes fosse em 1989 à segunda reunião de docentes do ISCTE, sem a mobilização das suas redes pessoais de contactos nas várias escolas, não teria havido em 1989 Comissão Inter Escolas de Lisboa nem ligações com o resto do país e a rede de COMISSÕES DE DOCENTES E INVESTIGADORES criada em 1995 e a cujo Conselho Coordenador veio a presidir teria talvez tido menos impacto.

Sem a Comissão Pró-Sindicato de que foi um dos 4 membros do núcleo inicial e na qual, apesar de não ter esse tipo de “perfil”, até contribuiu para o projecto de Estatutos aprovado na Assembleia Constituinte, os dirigentes que hoje fazem carreira no SNESup nem teriam lugares para a ir fazendo.

[Aproveito o ensejo para informar que recusei integrar a Comissão Instaladora e não fui convidado para as duas primeiras Direcções e que o lugar em que aprendi mais sobre certas formas de fazer “sindicalismo” foi o de último suplente
http://www.snesup.pt/htmls/EkyAVFEpVAzzOhjycE.shtml ]

Não entendamos todavia estas referências como sinónimo de que o estilo de intervenção do Mário Leston Bandeira foi sempre consensual, aliás enviei-vos um link para o SNESup Informação em que é noticiada a sua demissão de Vice-Presidente da Direcção uns escassos meses após a posse.

http://www.snesup.pt/htmls/_dlds/SNESup_Informacao_outubro_1990.pdf

Criado o SNESup, Mário Bandeira concentrou-se no seu papel de estratega, ideólogo e comunicador, em que foi sempre excelente, nem sempre atendendo ao real estado de mobilização e às exigências de participação interna. Ainda me lembro de um Conselho Nacional no Técnico em que fomos convidados a tomar uma decisão que iria ser comunicada em conferência de imprensa duas horas depois ! De certo modo o colega, pelo menos na minha leitura, actuava como um general que exigia que pusessem as tropas à sua disposição. Não faço ideia do que se passava na Direcção, mas a demissão do Mário não me surpreendeu . Há muita amargura no não poder “continuar a exercer com inteira disponibilidade as funções” que não tem a ver com os ciclos de disponibilidade que nos são endémicos.

Por isso Mário Leston Bandeira se voltou a empenhar na luta – e nas GREVES – em 1995 no processo de criação das CDI’s , a quarta componente de uma “Plataforma Reivindicativa Comum” que englobava três associações sindicais. A existência das CDI´s, explicou-nos Pedro Lourtie, foi importante para arrancar concessões ao novo ministro Marçal Grilo. As CDIs, presumíveis “radicais” eram uma incógnita temida.

Julgo que o fundador do Fórum, Luís Moutinho, ainda partilhará da ideia de que os novos movimentos sociais podem ter um maior potencial reivindicativo que os sindicatos e afins, cujas rotinas, limitações e podres, já são conhecidas do patronato e dos governos. No entanto um sindicato que contenha internamente algum potencial de mudança e um mínimo de democracia interna pode surpreender. Que o diga José Reis que, Secretário de Estado do Ensino Superior em 2001 NOS JULGAVA BEM SEGUROS na revisão do ECDU que tinha congeminado e para o qual, com a eleição da Direcção do SNESup liderada pelo Luís Belchior, CHEGOU O DIA DAS SURPRESAS.

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