Repensar o ensino superior em tempo de crise – Artigo Expresso 20-08-2011

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É conhecida a necessidade de tomar medidas de natureza estrutural de modo a dar sustentabilidade financeira aos diferentes sectores públicos, mas pouco se sabe o que irá acontecer ao ensino superior. A pulverização, a redundância e a ineficiência da rede de instituições é sem dúvida um dos maiores problemas estruturais do ensino superior público. Esta situação resulta em boa parte do chamado sistema binário que separa de forma hermética o ensino politécnico do ensino universitário. A defesa de uma ‘via alternativa’ à universidade tem-se baseado na necessidade de diversificar a oferta de cursos, na maior acessibilidade desses cursos e no seu mais baixo custo por aluno. No entanto, está por demonstrar a necessidade de um sistema binário de instituições para manter um sistema binário de formações. Esta visão separatista contribuiu para a proliferação descoordenada de escolas e de cursos, um pouco por todo o país, ao sabor das aspirações locais. Muitas destas instituições sofrem problemas cada vez maiores de procura, o  que leva a estrangulamentos financeiros insustentáveis que se refletem de forma dramática na qualidade do ensino.  Por outro lado, longe de se complementarem, tem existido uma concorrência e uma mimetização mútua entre universidades e politécnicos da mesma região ou da mesma cidade, para a captação desse ‘recurso’ escasso que são os estudantes. O elitismo do atual sistema faz com que os politécnicos aspirem a ser universidades e a escassez de estudantes em algumas regiões faz com que as respetivas universidades enveredem cada vez mais por formações próximas do ‘modelo politécnico’. Esta duplicação de competências, de cargos e de estruturas dificilmente se irá resolver por livre iniciativa das instituições, dadas as grandes dificuldades de relacionamento e comunicação entre politécnicos e universidades geograficamente próximos (vejam-se os casos do Alentejo, de Coimbra ou de Trás-os-Montes), frequentemente alimentadas por corporativismos institucionais de ambos os lados. A política paradoxal dos últimos anos tem completado o atual quadro de má gestão, por exemplo ao exigir o grau de doutor aos docentes do ensino politécnico, ao mesmo tempo que condiciona muitos doutorados a lecionar formações de carácter pós-secundário, para o qual bastaria uma licenciatura. Toda esta situação representa um tremendo desperdício de recursos financeiros e humanos, dificilmente compreensível em tempos de restrição e austeridade, como aqueles que vivemos. Torna-se assim evidente a necessidade de articular os dois subsistemas através da integração das escolas politécnicas nas universidades, de acordo com uma lógica nacional e regional. É um modelo já seguido com sucesso por algumas universidades em Portugal (Aveiro e Algarve por exemplo) e é a regra em Espanha. A integração dos dois subsistemas poderá contribuir para clarificar as vocações académica e profissionalizante no ensino superior, captar alunos para a segunda, ganhar eficiência e qualidade aumentando a diversidade da oferta formativa e garantir a dignidade do ensino politécnico. Assim haja conhecimento, visão e coragem política para enfrentar os interesses instalados que contribuem para a manutenção do atual sistema, apesar da sua irracionalidade.

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5 Respostas to “Repensar o ensino superior em tempo de crise – Artigo Expresso 20-08-2011”

  1. ivogoncalves Says:

    Obrigado por partilhar o artigo connosco. Não se esqueça de mudar “uncategorized” para “ensino superior”.

  2. Joaquim Sande Silva Says:

    Começo a ficar um pouco farto de “bater no ceguinho” mas não posso deixar de comentar a notícia da newsletter do SNESUP, segundo a qual terá havido uma reunião entre o sindicato e os reitores da UTL e da UL a propósito do projecto de fusão. Acho normal o sindicato preocupar-se com os postos de trabalho dos docentes e investigadores das duas universidades. O que não acho normal é deixarem completamente em branco a questão do IPL, que já esteve na calha para uma possível fusão com a UL. Será que o SNESUP não consegue ver mais longe e perceber que uma ostracização do IPL neste processo de fusão, irá ter consequências nefastas para a instituição e consequentemente para quem lá trabalha? Ou será que mais uma vez o subsistema politécnico foi esquecido, até pelo sindicato que representa os seus docentes?

  3. ivogoncalves Says:

    O SNESup não propõe fusões, nem é casamenteiro, como o Santo António.Perante um processo concreto, que é público, que é o da fusão UL-UTL disse que queria acompanhá-lo.

    Não me consta que o IPL tivesse manifestado qualquer interesse em ser parceiro desta fusão, nem o SNESup tem de se substituir ao IPL.

    Nem o SNESup, nem eu, nem, permita-me, o colega Joaquim Sande Silva. Se o IPL reelegeu sem alternativas Vicente Ferreira, lá saberá porquê.

  4. Joaquim Sande Silva Says:

    Fair enough. Na verdade para mim é um mistério porque é que havia tanto entusiasmo há uns anos atrás com o projecto de união UL IPL e agora que há uma oportunidade para relançar o projecto vetado por Mariano Gago, parece que nada se passou.

  5. ivogoncalves Says:

    Também gostava de saber.

    Na altura o Nóvoa procurava um casamento e o IPL tinha o que lhe fazia falta – uma escola de engenharia, ou seja, o ISEL. No ISEL o projecto foi apoiado por uma candidatura – Quadrado, Xufre e outros que conquistou quase todos os órgãos. O resto do IPL lá foi a reboque .

    Agora o Nóvoa tem a oportunidade de integrar a UL numa nova universidade cuja escola de engenharia será a referência máxima da área- o IST. É claro que não precisa do ISEL para nada, e não sei se o IST o quereria.

    No IPL, Vicente Ferreira foi eleito sem concorrência (até se aposentar ? com o compromisso de deixar as escolas fazer o que quisessem ? ) e não me consta que o retomar do projecto de fusão estivesse na agenda. No ISEL, Quadrado consolidou a sua posição, exonerou Xufre de vice-presidente e este acolheu-se com Nuno Crato às Novas Oportunidades.

    Não se pode salvar o IPL “malgré lui”. Deve sentir-se bem na sua zona de conforto.

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