A Imagem do Ensino Superior e dos Trabalhadores Docentes

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“..O Navio

Mas no navio nem todas as histórias são somente lendas vazias, palavras que se contam com génese na imaginação. Algumas histórias são feitas da mais pura fibra da verdade. Uma delas tem muitos anos e conta o reinado de um comandante altivo, presunçoso e arrogante, de tão descarado fingimento que afugentava aqueles que o deveriam seguir. Um comandante que gostava de se fazer bondoso, magnânimo e cortês, de finas maneiras e maneirismos, de opulência que nunca poderia possuir. Um fingidor que não era poeta, excessivamente preocupado com aquela palavra ideológica tão falsa e tão vendida, mas que muitos gostam de usar e abusar, espremer para além dos limites do sofrível: a imagem. Pois enquanto o comandante se preocupava em dar presentes aos mais altos dignitários, em trajar-se com as mais ricas roupas e forjar uma nobreza que não era a dele, os tripulantes do navio morriam de fome e descuido, sem nada para comer devido ao esbanjo, sem nada para vestir pois o chefe vestia tudo, escravos de um tirano que apenas se fazia benevolente aos olhos dos que o poderiam julgar e despir de toda aquela dissonante riqueza. Porém, a sorte do comandante foi curta, pois a tripulação rapidamente tratou de o dar de comer aos seus congéneres – os tubarões, verdadeiras víboras do alto mar. Porque quem constrói a imagem à base de mentiras é podre por dentro: talvez aqueles que são como ele dele gostem, mas quem verdadeiramente interessa… corta-lhe o pescoço. E assim foi. O navio lá vai sem destino e sobre este parece que ninguém se interroga…”

O Navio, A. Serôdio Inis

 O SNESUP divulgou há pouco tempo a seguinte notícia “O Jornal de Notícias dá um grande destaque a alegadas  declarações do Senhor Reitor da Universidade do Porto que terá afirmado que os professores trabalham pouco (…)” E depois acrescentava, “Estamos felizmente [realce pelo autor] em condições de dizer que o que o Senhor Reitor, em sessão pública, efectivamente afirmou não pode ser usado nem citado deste modo.”

Infelizmente, não é esta, mas a primeira que contribui para formar a imagem que os cidadãos têm do ensino superior e, em particular, dos docentes do ensino superior.

Infelizmente, e tanto quanto sei, não houve qualquer desmentido ou esclarecimento por parte da reitoria.

Infelizmente, episódios como este não acontecem assim tão raramente.

Infelizmente, os desmentidos também não acontecem e se acontecem, surgem num local de menor visibilidade.

Infelizmente, uma boa e sólida imagem é algo que demora muito a construir, mas pode desfazer-se muito rapidamente.

Infelizmente, também existem pessoas de má-fé ou com motivações mais baixas, que aproveitam todas as oportunidades para denegrir a imagem dos docentes do ensino superior.

Não quero crer que o Sr. Reitor tenha feito tal afirmação, até porque isso seria claramente “dar um tiro no próprio pé.” Sobre docentes em excesso, que está subjacente à notícia, gostava de referir que é fundamental distinguir entre o excesso real de docentes, o que tenho quase a certeza de não existir, e a escassez de verbas para se ter o número requerido de docentes para um ensino com a qualidade desejável, o que tenho quase a certeza de já existir. Para alguém desconhecedor do ensino superior, ou simplesmente de má-fé, poderia parecer fácil reduzir o número de docentes do ensino superior, bastando para isso aumentar o número de horas que cada trabalhador teria de ministrar. É possível leccionar algumas 35 horas de aulas, desde que a qualidade não importe e a saúde do docente seja irrelevante. A favor dos docentes estará o facto de a saúde sair muito dispendiosa ao estado.

Se os cortes que têm acontecido nos últimos anos se agravarem, como anunciado, e prolongarem, o que ainda não se sabe até quando será, ou seja, se os cortes não forem passageiros, então certamente que a qualidade sofrerá de forma irreversível. Passo a explicar. É certo que os cortes vão trazer inexoravelmente perda de qualidade no ensino. É algo que tem de ser assumido. O que me parece é que a esperança de muitos colegas é a de que isto seja tudo passageiro e, como tal, também a redução de qualidade será passageira e a “mossa” ultrapassável com maior ou menor facilidade assim que o sistema voltar a ser financiado dentro da normalidade, seja lá o que isto for.

E se afinal o passageiro se prolongar por muito mais tempo? Em Portugal está muito inculcado o hábito de tornar o provisório em definitivo. Devo reconhecer, que em certos casos resultou simplesmente da impossibilidade de ser de outra forma. Ao mesmo tempo, os últimos anos têm revelado falta de capacidade dos nossos governos para inverter rumos. Se os cortes se prolongarem então a recuperação da qualidade terá provocado danos irreparáveis e também deixado algumas “mossas” que levarão muito tempo a ser reparadas. A redução da qualidade também inclui a incapacidade do sistema em aceitar novos alunos capazes, bem como a perda de alunos pelo sistema, que de outra forma não aconteceria.

O problema da imagem é mais complexo e está mais enraizado do que possa parecer à primeira vista. Ele existe dentro das instituições de ensino. Qual a imagem que os próprios docentes têm do ensino superior e dos seus pares? E qual a imagem que o cidadão comum tem dos docentes do ensino superior?

A imagem do ensino superior e dos seus profissionais tem de ser construída de forma sólida, com base num percurso, não bastando apenas a aparência, não pode ser “podre por dentro”. Quanto mais sólida, melhor se aguentará. Quanto melhor, mais credível será. Os docentes têm aqui uma responsabilidade muito grande da qual devem estar sempre conscientes. Nos dificuldades que se avizinham a credibilidade será ainda mais fundamental.

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Uma resposta to “A Imagem do Ensino Superior e dos Trabalhadores Docentes”

  1. Luís Moutinho Says:

    O Senhor Reitor da Universidade do Porto admite, contudo, contratar reformados a custo zero para prover a serviço docente de necessidade permanente. O Senhor Reitor desvaloriza o trabalho docente e arrisco-me a afirmar que é por isso que acha que os senhores professores trabalham pouco. Por conseguinte, o Senhor Reitor não está à altura da Instituição que dirige.

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