O Navio*

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Um navio, um navio enorme quando visto ao perto e pequeno se visto ao longe, navega sem destino pela imensidão do oceano. Dele contam-se as histórias mais mirabolantes. Este navio é muito antigo, um dos mais antigos da Europa, segundo dizem. Acusa a idade e não há quem o endireite. Quando o mar fica encapelado, há no navio quem faça por mantê-lo direito, enquanto outros contentam-se em apreciar o esforço alheio. Na altura da borrasca, quase todos discutem acerca do que deve ser feito. Não falta quem queira mandar, pois para estes existem camarotes superiores. Alguns mostram a virtude das suas ideias, outros falam em votar, outros dizem que dialogar seria estar a pactuar com os responsáveis pela situação, outros ainda limitam-se à maledicência, também existe quem apenas se dedique a promover a contestação e há até quem nem seja ouvido por já ter afundado vários navios, ou quem se ache no direito apenas por ser membro de um clube. Uns mais sensatos referem Einstein para dizer que há os que planeiam o futuro e os que são planeados. Alguns de juízo duvidoso afirmam que é um pequeno grupo quem afinal tudo manda no navio. Mas isso parece política e nessa não me meto. Já várias pessoas avistaram o navio e há relatos fidedignos de ter sido visto passar por diversas vezes no mesmo local. Dizem uns que isto é mau sinal, mas outros argumentam que se trata de navio destinado a trajectos circulares e até brincam dizendo que anda muito sem sair do sítio. Apesar disto tudo, há esperança, pois o novo capitão aparenta ser homem de bem e diz que com ele ninguém fica para trás. O navio lá vai sem destino e sobre este parece que ninguém se interroga. Como não sou capitão encartado, nem entendido nas artes de navegar vou esperar e informar-me melhor para poder dar-vos novidades noutra altura…”

O Navio, A. Serôdio Inis

Esta breve história serve para dar o mote ao texto que se segue.

Os objectivos das políticas não podem ser meros números, factor aliás reconhecido no actual programa do governo. Simples trabalho para estatísticas, como feito lamentavelmente pelo ministério (ministro, secretários de estado e não sei quem mais) anterior. Considero que o “Contrato de Confiança” é um bom exemplo disso e ajuda a perceber como este País chegou onde chegou. Fixar um número, sem justificação, ou com uma mera justificação política desligada da realidade, e “lançar” dinheiro para cima do problema não é a solução que se deva esperar de um governante e agora que o dinheiro falta nem solução é. Falo em justificações políticas porque não admito que um governante possa usar as pessoas para atingir objectivos pessoais, glória pessoa, corporativos, favorecimentos, ou outros que não o bem comum. Seria vil. Nesta fase é legítimo (na realidade é sempre legítimo os cidadãos quererem saber o porquê dos gastos do estado) e cada vez mais provável, os cidadãos questionarem o porquê do dinheiro gasto em formação avançada e em investigação. Dizer que outro país possui mais do que o nosso numa certa área, não pode ser razão suficiente para se consumirem recursos nacionais nessa área. A cópia simples de modelos de sucesso de outros países, não é solução, mas apenas sinal de ignorância. Quando estão em causa recursos de todos, é preciso saber até que ponto será positivo para o País (leia-se pessoas do País), é necessário pesar os prós e os contras, é fundamental saber o que fica por fazer numa área para se fazer noutra. Mas ainda é preciso algo antes disso, é necessário voltar ao início.

Todos reconhecemos a importância do ensino superior e da ciência, e muitos oferecem soluções, mas o problema primeiro está no início. Antes de se discutirem questões como, o sistema binário, a regulação das instituições de ensino e investigação, a legislação, o financiamento do ensino superior e a sua natureza, os apoios públicos à investigação (e a natureza do financiamento da investigação), em quem e no que investir, onde realizar doutoramentos, que investigadores queremos, se devem ser incentivadas parcerias com as empresas, ou que voz deve ser dada à comunidade científica, importa definir onde se pretende que o País esteja em matéria de ensino superior e ciência num horizonte temporal muito alargado. Trata-se de uma visão que nos diga qual o destino do País, do ensino superior e da ciência, trata-se de uma visão que nos inspire a fazermos mais e melhor. Mas muita atenção, que para isso, a visão terá forçosamente de ser pensada para as pessoas, porque só assim as poderá inspirar e motivar. De outra forma ser-lhes-á estranha e naturalmente repudiada. Pode argumentar-se que as pessoas devem servir o País (os grandes desígnios nacionais). Mas tal é uma meia-verdade. Só pode ser verdade se tais desígnios tiverem sido definidos no interesse concreto das pessoas, actuais e vindouras. Precisamos de políticas orientadas para as pessoas que as inclua e não as descarte. De outra forma, seriam políticas para um País sem pessoas, o que encerra em si uma contradição. Um País no abstracto não é nada.

Esse horizonte temporal tem de ter em conta que um ciclo de formação superior é no mínimo de 15anos (12+3) a que se devem juntar mais alguns anos de análise do impacto. Estamos portanto a falar de aproximadamente um mínimo de 20 anos (para dar um número redondo). Isso só é possível com um acordo alargado. Serão capazes? E seremos capazes? Seremos todos, repito todos, capazes de colocar o interesse nacional (de todos: actuais e vindouros) acima dos pessoais, ou vamos continuar cada um de nós obcecado com o seu centro de gravidade? Quem tem o poder tem a obrigação de respeitar as pessoas. E o ensino superior pela sua tradição humanista e função na sociedade deveria constituir um exemplo e os seus dirigentes, reitores e presidentes, o exemplo máximo. Cargos de tamanha nobreza exigem comportamentos da maior nobreza e pessoas de categoria invulgar. Como imagino as dificuldades desejo-lhes as maiores felicidades para que a nobreza nunca lhes falte.

No programa do governo estão definidos objectivos estratégicos para o ensino superior e para a ciência, o que é positivo. Infelizmente, estão longe de ser verdadeiros objectivos estratégicos de longo-prazo (também não se deve confundir correcção orçamental com objectivo estratégico, pois aquela não é mais do que uma regra da mais elementar boa gestão da coisa pública). Sem uma estratégia de muito longo prazo continuaremos a não saber para onde nos dirigir. Sem uma estratégia de muito longo prazo estamos condenados a continuar perdidos, possivelmente sempre às voltas, num imenso oceano e possivelmente condenados a um destino pouco brilhante e possivelmente planeado por terceiros.

(*) Este texto não foi escrito de acordo com o novo acordo ortográfico.


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