Lapso revelador

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Li na página de facebook do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, ex-docente do ensino superior.

Nesta altura do ano, dezenas de milhares de jovens já iniciaram os seus estudos, nas universidades e nos institutos politécnicos. Quero felicitá-los por terem chegado até aqui. Penso, em especial, naqueles para quem a entrada no ensino superior e politécnico implicou um grande esforço, para si e para as suas famílias. Penso naqueles que tiveram de ultrapassar as barreiras colocadas pelo seu meio de origem ou outras dificuldades pessoais. A todos peço que sejam exigentes: para consigo próprios, mas também para as instituições que os acolhem. Os jovens têm direito a um ensino de excelência, onde o mérito seja premiado e reconhecido. Aqueles que agora chegam às universidades e aos politécnicos constituem um exemplo de tenacidade e representam um sinal de esperança no futuro de Portugal.

A chamada de atenção a negrito é de minha responsabilidade e serve para sublinhar um erro impróprio a alguém que conheça o sistema de ensino superior português. Será com certeza um lapso, até porque noutra parte do texto fala em ensino universitário e politécnico e não exclui o ensino politécnico do superior. Mas até por aí é um lapso revelador dos preconceitos que permanecem em Cavaco Silva. O ensino politécnico não é um ensino de segunda. É um ensino superior, em cujas instituições se produz, transmite e transfere conhecimento. Permite que o sistema universitário, forma de ensino superior de objectivos ligeiramente diferentes, seja aliviado da pressão que sofreria se não tivéssemos um sistema binário. Deveria ser promovido e alargado. Merece respeito e dignidade, que estes pequenos lapsos simbolicamente não permitem.

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6 Respostas to “Lapso revelador”

  1. Adriano de jesus Brandão Says:

    Pois é bom estar a tento, mas estas coisas esclarecem-se no terreno e no momento certo.
    No meu entender, é muito mais gravoso o sistema continuar a chamar e a tratar o politécnico como ensino recorrente/recurso, sub-sistema… Aqui, colega deviamos exigir tratamento digno ou seja, Ensino Superior com alunos e professores de igual para com os universitários…
    No entanto, é sempre com admiração que verifco a atenção pretada a estes pequenos lapsos…

  2. Joaquim Sande Silva Says:

    Colegas
    É de facto um lapso revelador de várias coisas. A mais importante quanto a mim é que enquanto existirem institutos politécnicos, lapsos destes continuarão a existir sempre. Repare-se por exemplo nas entrevistas do próprio ministro da tutela, que normalmente associa ensino superior a universidades, não mencionando os politécnicos. Esta é aliás a norma numa boa parte das peças jornalísticas com referências ao ensino superior. E não espanta que assim seja nem sequer devemos assumir a atitude de Calimero e clamar contra a injustiça de nos deixarem de fora. A verdade é que ensino superior é sinónimo de universidade por esse mundo fora e assim continuará a ser. Por algum motivo a Finlândia, um dos poucos países com um sistema binário semelhante ao nosso, passou a designar os politécnicos como universidades de ciências aplicadas. Não me parece que tal vá acontecer em Portugal, até porque a rede de ensino superior não está racionalmente distribuída pelo território como acontece com a Finlandesa. Se assim for assistiremos ao ridículo de passar a ter 2 universidades na cidade de Coimbra, 3 no Alentejo, 2 em Trás-os-Montes, etc. etc.
    De resto não estou muito de acordo com os dois comentários anteriores quanto à atitude de nos colocarmos em bicos-dos-pés para reivindicar um estatuto de igualdade que não temos, perante as universidades. De nada serve puxarmos dos nossos títulos académicos, ou dos artigos escritos em revistas internacionais e dizermos que fazemos um trabalho tão meritório como o das universidades. Por muito que nos custe o ensino politécnico é e continuará a ser, enquanto o actual sistema binário de instituições perdurar, um sub-sistema menor e de segunda escolha. Se não, basta olhar para os desastrosos resultados do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior no que toca a uma boa parte dos politécnicos. Basta também olhar para o muito menor financiamento por aluno ou para a sobranceria com que nos olham quer os docentes quer os estudantes das universidades. É bom que assumamos que assim é porque só assim poderemos mudar alguma coisa. O que há a mudar, e já o escrevi várias vezes, é a manutenção do ensino politécnico à parte das universidades. Este quase apartheid de instituições de ensino superior é e será sempre sinónmo de menoridade para quem trabalha e estuda no ensino politécnico. Por isso há que chamar a atenção para a necessidade de integrar os dois sub-sistemas, à semelhança do que acontece em Aveiro ou no Algarve e acabar de vez com os institutos politécnicos. O pior que nos poderá acontecer na sequência de uma provável reorganização da rede de ensino superior, será a manutenção da actual separação. Perante o cenário de fusões actualmente discutidas entre universidades, como a Técnica e a Clássica de Lisboa, ou a UTAD e a UP, a manutenção da actual separação irá conduzir a uma ainda maior ostracização e emagrecimento do ensino politécnico. Nesse cenário tenebroso, estarão então reunidas as condições para a transformação dos politécnicos em instituições de ensino pós-secundário, tal como tem sido sugerido por várias pessoas ligadas sobretudo às universidades.

  3. nsousa Says:

    Os politécnicos nunca tiveram rumo traçado. Deixados quase que à sua sorte, muitos tomaram decisões que os levaram por caminhos que só mais tarde (i.e. hoje) se revelaram errados.

    A situação continuará como está por mais 5-6 anos, até ao fim do regime transitório. Só depois disso a tutela pensará no que fazer com os politécnicos. Até lá por muito que se discuta duvido os decisores toquem no assunto.

    • Joaquim Sande Silva Says:

      Nuno, mas e a crise? E a racionalização da rede? E a impossibilidade óbvia de manter algumas instituições a funcionar com menos 600 milhões de euros e menos (muito menos) receitas próprias? Achas mesmo que nada irá mexer?

      • nsousa Says:

        Bom, atenção que isso da crise não é bem o que se pensa. Mas isso é outra história…

        De qq forma é evidente que há muito desperdício de recursos e que a racionalização da rede poderia ajudar a poupar. O que quero dizer é que me parece arriscado andar a fazer fusões antes do fim do regime transitório. As fusões a acontecer antes disso deverão ser as que já estão mais ou menos encaminhadas. Incorporação de politécnicos em universidades antes de 6 anos parece-me complicado.

  4. ivogoncalves Says:

    O lapso é bastante comum, e até já o ouvi a dirigentes sindicais. Quando foi lançado o ensino politécnico, havia até alguns dirigentes da Administração Pública que diziam: “ainda bem que vai voltar a haver ensino médio”.

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