Para uma inflexão séria nas estratégias sindicais ineficazes

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Considerando a situação do país e a avalancha de medidas de ataque do poder governamental e patronal ao status quo laboral, a participação popular nas manifestações da CGTP em Lisboa e no Porto foi razoável. Porém, foi uma participação previsível e muito parcial que não chegou a muitos sectores da população trabalhadora que têm todo o interesse em opor-se à política anti-social e anti-laboral do governo. E faltaram grupos profissionais que recentemente se tinham mobilizado de forma mais vasta.

Observando a marcha, foi-nos evidente que há uma grande diferença no comportamento dos portugueses nestas mobilizações em comparação com os gregos. Se isso é para lastimar ou a elogiar não consigo concluir definitivamente. Por um lado, parece que a expressão da cólera popular seja necessária para fazer com que os governantes e o patronato compreendam o perigo da sua estratégia revanchista; por outro lado, não se podem detectar efeitos úteis do comportamento mais violento grego, em relação à continuidade da política grega. Receio que o governo, o patronato e a troika arrumassem as manifestações nos dossiês de recortes de imprensa e continuassem a preparar o seu aparelho securitário para sublevações futuras menos controláveis. Mas esta observação é menos importante aqui que as reflexões estratégicas.

Temos sérias preocupações no que respeita à estratégia da CGTP. O lançamento praticamente ritual do apelo à ‘semana de luta’ em Outubro é evidentemente pouco e simultaneamente demais. Em primeiro lugar, os sindicatos, ao nível das empresas, estão muito enfraquecidos, e a convocação de greves pela CGTP arrisca expor a sua fraqueza e divisão, isolando os militantes e activistas da massa de trabalhadores compreensivelmente amedrontados pela insegurança e a prepotência patronal. A demonstração de fraqueza sindical é precisamente aquilo que o patronato e o governo precisam para continuar a sua ofensiva com confiança. Não me parece muito previdente. É a repetição ritual da bravura maximalista que acompanhou a convocação da última greve geral. Além de mais, são acções que não têm possibilidade de produzir ganhos visíveis para os trabalhadores, de maneira a ensinar-lhes que lutar vale a pena. É uma estratégia arriscada e imprudente de desmobilização e de um desgaste de recursos organizacionais irrecuperáveis.

Pode-se tentar refutar a minha preocupação referindo-se os inevitáveis êxitos de greves nos sectores de transportes e da participação grevista da função pública. Mas temos que ter uma análise fria dos resultados das greves anteriores, para prever a recepção dos apelos de hoje, e é um facto que greves nos transportes e na função pública são mais uma chatice para a população trabalhadora não-grevista de que para o governo e o patronato! E não se deve sobrestimar a solidariedade dos não-grevistas. O transtorno da vida quotidiana traz ressentimento e os portugueses não são cegos; percepcionam bem a amplitude das greves e calculam os custos e benefícios individuais e familiares do risco associado à falta no emprego.

Mas ainda: qual será o efeito, para a mobilização, do apaziguamento dos professores após o acordo sobre a avaliação e a divisão da plataforma sindical?

A denúncia da situação e do poder pela CGTP é relativamente bem construída mas não basta: precisamos de uma estratégia que consiga romper o ciclo de derrota; precisamos de uma estratégia que indique saídas positivas e realistas, que vise travar o poder do capital financeiro, travar a ofensiva anti-laboral e anti-social, uma estratégia que também projecte uma transformação social, ou seja, uma estratégia radicalmente ‘reformista’ em que o movimento sindical se ponha na vanguarda de toda a população assalariada e dependente, para a defesa de um capitalismo seriamente regulado e socialmente responsável (ao nível nacional e europeu). Para tal é preciso muito esforço útil e uma estratégia de mobilização constante, a partir da acção do movimento sindical no seu conjunto e liderada ao nível confederal sindical. Se houver recurso a greves como armas nesta grande batalha ‘civilizacional’ (para usar a boa referência retórica do dirigente da CGTP), a sua utilização deveria ser táctica e deveria nascer da luta, lançadas para terem efeitos concretos e tangíveis.

A liderança encontra-se apenas na denúncia e nos pré-avisos ou, antes, na vontade de chegar às pessoas e oferecer-lhes um caminho credível de esperança, ou na coragem de ajustar com imaginação os hábitos herdados de uma orientação sindical que há muito tem acompanhado o declínio do movimento?

Portanto, deveremos estar agora a advogar a adopção de uma estratégia política, ou seja, política no sentido amplo de mobilização popular (o que a orientação actual da CGTP visa de forma camuflada), uma estratégia que procure unir a classe trabalhadora em sentido alargado e os movimentos sociais e profissionais, que mobilize e que dirija a pressão popular para torcer os braços do governo e do patronato na ‘concertação social’, que leve a pressão para o parlamento, procurando obter ganhos com base na força dessa pressão e com a sagacidade de transformar eventuais ‘concessões’ em matérias racionalmente justificadas em vitórias para a classe trabalhadora, o estado social e o país.

(Para mim, a decisão estratégica mais consequente da CGTP desde 1984 foi a sua integração no Conselho Permanente da Concertação Social. Mas, enquanto a UGT sempre soube utilizar a sua participação nesse órgão para fazer as trocas necessárias para manter a sua posição, a CGTP não soube – ou não quis – utilizar eficazmente a vantagem significativa da sua capacidade mobilizadora para avançar a sua perspectiva na concertação.)

Infelizmente, as forças predominantes na CGTP (desde o PCP até ao BE) estão alérgicas a esse tipo de pensamento (“Deus nos livre de entrar em jogos de negociação-conflito: as massas podem aprender lições falsas e nós poderemos ficar contaminados pelo compromissos!”), e infelizmente, a UGT está alérgica à mobilização popular! É preciso um lobby junto das lideranças sindicais de todo o movimento sindical, porque nesta divisão inútil, com base em diferenças ideológicas e políticas irrelevantes, afundaremos todos.

No Sábado, após o energético discurso do Secretario Geral da CGTP, quando se procedeu à ‘votação’ ritualmente unânime da resolução da manifestação, virei para a minha colega e disse: “Em vez de ratificar, deveríamos é aproveitar do momento para fazer um comício e deixar a gente fazer um brain-storming para descobrir como proceder amanhã.” Ela riu-se… mas ela é assim, tem um bom sentido de humor; porém eu não estava lá para brincar.

Lisboa, 3 de Outubro de 2011,

Alan Stoleroff

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3 Respostas to “Para uma inflexão séria nas estratégias sindicais ineficazes”

  1. O sindicalismo ‘assusta e foge’ | Comunicar Says:

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  3. A nova Greve Geral e o debate sobre as estratégias sindicais ineficazes | Comunicar Says:

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