Manifesto pelo Sonho (V/V)

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IX. Escola de faz-de-conta

Suspeitamos que o grande problema do ensino superior está desde logo e sobretudo a montante: enquanto não tivermos um ensino básico e secundário realmente formativos, exigentes e seletivos, o ensino superior chegará demasiado tarde a estudantes já demasiado formatados (ou informatáveis: o que porém teria os seus méritos) para conseguirem compreender o espírito universitário. A culpa não é só da Universidade que forma professores mal preparados, como do clima geral de laxismo unilateral que o sistema (que é, na verdade, uma sedimentação de inúmeras reformas) institui.

Quando professores têm medo de dar más notas (quando têm mesmo receio de não dar as melhores notas), como pode um sistema avaliativo funcionar? Quando mais vale a papelada que a  sala de aula, como pode haver verdadeira pedagogia? Há um livro com um título brilhante a este propósito: é a obra de Hamilton Werneck, Se Você finje que ensina, eu finjo que aprendo, 26.ª ed. port., Petrópolis, Vozes, 2009. Mas pode-se inverter: porque muitos fingem que aprendem, os professores são levados a fingir que ensinam. E a fingir que avaliam. E porque o sistema premeia quem finge, fingir é crime que compensa. Penalizado é quem leva as coisas a sério.

O aumento vertiginoso de casos de plágio, a falta de sensibilidade de tantos a essa prática fraudulenta, encorajada pela simplicidade e banalização do copy-paste, de par com o desprezo de muitos pelo livro e pela leitura, havendo mesmo o culto do conseguir fazer as cadeiras sem ter lido um livro, apenas por manhosos apontamentos, agora já colocados até na Internet – e diz-se que consultados por telemóvel (celular) aí estão como sinais de alarme. As editoras procuram corresponder com manuais resumidos, abonecados, resumões e resuminhos. Que por sua vez sofrem ulteriores processos de deglutição rápida. Perante a sofisticação da fraude e a generalização da incompreensão, os docentes estão desorientados.

Em alguns países, os estudantes apresentam-se nas aulas de computador portátil e aí estão apenas em ofício de corpo presente. O professor pode pintar tragédia grega com pathos de eríneas vingadoras, lançar mesmo mão das mais vistosas folies bergères didáticas (como dizia um grande poeta professor); mas a aula é entrecortada na mesma por risos e até gargalhadas, reação natural a  filmes cómicos que se vão vendo no youtube

Os alunos não teriam falta se não fossem às aulas, mas a sua autonomia não chega para o não fazerem: ficam, mas o espírito não está lá… Nos meus tempos de caloiro, quando algum professor era mais suporífero, não se dormia nas aulas: faltava-se.

X. O Sonho e a Vida

Perde-se, pois, a liturgia sagrada da aula (que é sagrado sacrifício) e perde-se o também sagrado livro.

Conheci um vice-reitor que tinha como ponto de honra não lecionar uma cadeira sem dela fazer um manual, por que os seus estudantes vissem o seu olhar do assunto, e a interpretação que dos demais autores fazia, um guia para que se não perdessem na selva da doutrina. Fê-lo mesmo quando já estava com idade para se não meter nessas aventuras. Sempre o admirei por isso.

Outro exemplo marcante: quando, aos vinte e poucos anos, ainda sem mestrado sequer, um amigo meu foi promovido a regente de cadeira, um catedrático de muito prestígio procurou-o e incitou-o não a seguir as suas lições (caminho mais fácil e mais óbvio), mas a escrever um manual de sua própria autoria. Nunca se curaria disso, o pobre.

Hoje tal fará sorrir, nesse sorriso amargo de quem vê tempo e vida desperdiçados: para quê? Para quê escrever lições próprias, dirá o nóvel docente, se tenho aqui os apontamentos das aulas que me deram, e que me permitiram fazer a cadeira com boa nota? Para quê escrever lições próprias, se iria concorrer com mestres consagrados? Tenho é que fazer logo as teses e os concursos. Como é compreensível este raciocínio… Mas grande foi o gesto daquele Professor, ao não pensar nem na “boa nova” da sua mensagem insubstituível, nem nos mais prosaicos direitos de autor que, com mais fama, se propunha também a perder.

Há por aí (não nos iludamos) uns tantos pétreos agelastas. Mas também temos, felizmente, subtis ironistas. E existem mesmo exemplos heroicos. Não me impressionam muito os gestos largos dos que batem com a porta; interessam-me e edificam-me mais os daqueles que não abandonam o seu posto. Um catedrático já falecido dizia que a Faculdade era a sua trincheira. Não gosto da imagem, mas compreendo o espírito.

Ainda há os que são como aquele menino holandês com o dedo na fenda do dique. Até ele estalar de vez.

Muitas e muitos de nós quase não tiveram vida (quase não a têm) para entrar nesse sonho fascinante da Universidade. E para muitas e muitos o sonho volveu-se em pesadelo (vidas destroçadas, famílias preteridas, lares desfeitos, saúdes arruinadas, outros sonhos sufocados), no qual ainda teima em persistir algum pó doirado da primitiva fantasia.

Será que ainda se pode recuperar o tempo perdido, refazendo a vida perdida? Ou será que ainda há salvação no próprio sonho, agora povoado de monstros? São dois caminhos legítimos.

O que não se pode é perder a vida e o sonho. E não seria excelente recuperá-los aos dois?

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