Manifesto pelo Sonho (III/V)

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V. A Ditadura do Educativamente Correto

O educativamente correto, ditadura subtil que todos exercem sobre todos, em grande medida impede que nos confessemos, até a nós mesmos. O que mais se ouve nos corredores das escolas é que tudo vai bem, não podia estar melhor.

Todos (digamos: quase todos) estão a trabalhar muito (desumanamente, no limite da impossibilidade física, ou material, ditada pela natureza das coisas), mas ninguém sequer se queixa, senão à boca pequeníssima, e com aquele misto de exaustão e de deleite por se ser herói do trabalho, novo stakanovista.

Ninguém acha que haja problemas com nenhum dos outros intervenientes no processo educativo – pessoal ou sistémico. É proibido haver problemas. Quem os tivesse seria um inadaptado, mau pedagogo, mau colega, mau funcionário, mau trabalhador, e também, obviamente, de tão enorme exceção à regra, um marciano, quiçá um louco.

VI. Frenesim Laboral

Quem questiona as cada vez mais frequentemente mudadas regras do jogo e a cultura da tecnocracia e da vertigem, do tudo para ontem, das reuniões e das aulas, e dos artigos, dos livros e das teses em simultâneo, em vários pontos do país (e do estrangeiro, para alguns – agora com videoconferência, pois então…), e as catadupas de convites (e “cobranças”), vários telefones a tocar ao mesmo tempo de dia e de noite e mensagens a chover num telemóvel que não dorme e num portátil que não se cansa e nunca fecha? E os mil “patrões” de dentro e de fora a exigir mais, sempre mais?

Findas as aulas, as noites não têm fim em trabalhos que têm de ser preparados para o dia seguinte, e entretanto ainda uns tantos alunos e colegas solicitam mais coisas por email. Os fins de semana não servem para descansar nem ver que há mais mundo além da escola: mas a tentar, ofegantemente, não deixar que o “expediente” não se empilhe ainda mais. E as férias servem para isso, e para tentar ler mais teses (sempre chegam cada vez mais, e muitas em estado bruto, que é preciso inimaginavelmente corrigir) e ir escrevendo alguma coisa…  Acabou a vida há muito para alguns. O professor é um factotum, e não tem a sabedoria de Fígaro.

Muitos sofrem amargamente estes tempos de insana mania da produtividade, exaltação da agitação e da autopromoção, burocracia opressora, liderança indiscutível, culto da personalidade e espavento da subjetividade de quem tem cargos e/ou acredita que é génio.

Está longe de ser só na escola. Os que  têm bons, discretos, prudentes e moderados dirigentes ou patrões (ou patrons) poderão até parecer subservientes na sua sincera e merecida apreciação. Quem os tem que os estime e reeleja, se puder. Não sabe a sua sorte. Digo-o porque estou em maré de admirar os meus. E isso faz toda a diferença. Até na liberdade com que escrevo este artigo. Quase deixei – sinceramente – de ter asma, que é, grosso modo, falta de ar… ou ar que não sai, que não consegue sair…

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Uma resposta to “Manifesto pelo Sonho (III/V)”

  1. AC Says:

    Rotação de funções em vez de quotas de acesso
    Idealmente, a organização duma escola pressupõe a definição de um organograma funcional que apresente uma visão panorâmica do sistema de funções e subfunções que subjaz ao serviço que presta – o ensino de determinados tipos e graus. Associado ao organograma funcional, há certamente descritores que, para além da caracterização das funções, ainda descrevem as relações de dependência entre elas e os recursos materiais e humanos que têm de existir para que o serviço possa ser prestado. Idealmente, deve haver também um outro organograma que estabeleça a correspondência entre as funções e os recursos necessários, nomeadamente os docentes. Nele são definidos certamente os títulos dos cargos e os requisitos profissionais dos docentes, porventura as classificações obtidas em sucessivos processos de avaliação de desempenho.
    Ambos os organogramas são piramidais independentemente do número de níveis hierárquicos imposto pelas linhas gerais da organização da escola. Assim, as funções superiores exigem naturalmente um número reduzido de docentes para coordenar, agregar, orientar, modernizar e estimular a execução das funções que ocupam os níveis mais próximos da base do organograma funcional. São portanto necessários menos docentes para desempenhar as funções superiores.
    No entanto, o desempenho das funções que se aproximam do vértice da pirâmide pode ser rotativo de modo que o conjunto de professores habilitados a desempenhar cada função se constitua num fundo de recursos que apoie a substituição periódica do docente titular da função. Um docente de uma categoria profissional superior não desempenhará sempre a função superior para que está reconhecido. Também o vencimento que o docente auferirá acompanhará a rotação de funções, devendo ser composto por duas componentes determinadas pela categoria profissional e pela função que desempenha.
    O fundo de recursos – resource pool – desbloquearia as quotas de acesso a categorias superiores que, impostas pela escassez de meios financeiros, promovem classificações abaixo do mérito, desmotivando os docentes e impedindo-os de responder aos desafios das funções superiores. Para além da substituição das quotas de acesso, a rotação do exercício de funções superiores deverá ser estudada como potencial fonte de melhoria do serviço que cada escola presta.
    Adelaide Carvalho
    Porto, 16 de Agosto de 2011

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