Manifesto pelo Sonho (II/V)

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III. Pedagogias, Arcaísmos e Economicismos

É curioso como nunca se aplicam aos professores os critérios doces e garantísticos que se louvam (em muitos casos justissimamente) para os estudantes, e até para a geral gestão de recursos humanos empresarial. Nem os professores têm, que saiba, um provedor sequer; aqueles, sim. As grandes ideias modernas dos recursos humanos, da mediação dos conflitos, da pedagogia construtiva e inspiradora parecem parar quando se trata dos docentes: para eles vale só a velha burocracia, o processo disciplinar, a estigmatização?

Uma escola é uma grande orquestra. Vamos desprezar o tocador de bombo e o de ferrinhos? Todos teremos que ser primeiros violinos? Do mesmo modo que o diferente também não deve chocar ou ser discriminado, mas antes acolhido e integrado: as harpas, não têm lugar? Porque o sóbrio pianista é placidamente aceite e a etérea harpista nem por isso? Preconceitos. Preconceitos.

Quando, já quarentão e doutor, fui cursar a minha terceira licenciatura (onde tive, aliás, professores brilhantes) descobri o que antes nunca tinha percebido: são úteis até os professores medíocres, que nos descansam da pressão das grandes ideias dos professores brilhantes.

O génio pode sufocar o aluno. São raros os professores geniais que conheci que eram populares entre os meus colegas alunos. Por um lado, pelas notas que não esbanjavam, mas sobretudo porque – como é óbvio – não eram percebidos (em todos os sentidos da palavra). E não faziam, de todo não faziam, o hoje imprescondível marketing pessoal.

Ora as coisas complicadas nem sempre se podem banalizar. E quando o professor mais talentoso (já não falo do genial) começa a descer o nível a ver se é entendido, vão logo dizer que não dá matéria, que só conta anedotas… E na verdade ele está desesperadamente a ver se encontra nos imaginários dos estudantes uma amarra qualquer pela qual eles o entendam. Mas é muito difícil, porque está derrotantemente comprovado que nem as narrativas mais básicas são de todos conhecidas: há quem não saiba o que significa MFA, ou quem foi Otelo Saraiva de Carvalho (talvez um “hotel de luxo”… – está no youtube), não saiba a história do capuchinho vermelho, e seja indiferente a Harry Potter.

Contudo, para muitos dos formatados (burocratas e mesmo estudantes, ai de nós), os medíocres é que seriam os bons professores… E os inspirados, criativos, esses que exigem e subvertem a modorra dos dias, meros lunáticos a vexar, punir e até expulsar. Só quando esses ganham prémios e se capatapultam para a televisão é que passam a ser reconhecidos (e se o prémio não for muito badalado, nem isso: só serve para a inveja dos demais)… Mas estas distinções, como se sabe (mas não se reconhece) ocorrem apenas a uma percentagem ínfima dos que as mereceriam, e sabe-se se lá se não bafejam também alguns pelo simples movimento aleatório da roda da fortuna, mais ou menos oleada por epifenómenos.

Um dos graves erros da Escola (mesmo da pública, hélas!) é o ter-se mercantilizado e estar a adotar sem discernimento as regras desses mercados furiosos, cegos e iníquos, que estão agora tragicamente a mostrar o que valem, ao nível macro-. Mas enquanto a fúria da mão invisível já se vai vendo nas finanças, com repercussões na vida e no bolso quotidianos, ainda se não deu o salto mental que permitiria perceber que é essa mesma lógica que está a transformar a escola na guerra de todos contra todos, e por mais leis que tenha, faça e refaça, nela vigora já a lei da selva, que é a mesma do mercado descontrolado e desregulado.

IV. Pelo sonho é que vamos…

No plano material, a degradação da situação da classe não pode ser mais evidente. Mas não é só. Nem isso é, para nós, professores, que somos irrecuperavelmente idealistas, o principal. Nunca o foi. Esta época de crise até poderia ser momento para, mais uma vez, a classe mostrar a sua abnegação. O problema é que os professores estão exaustos e desiludidos. Embora haja terríveis espíritos de combate que sem deixarem de ser lúcidos nunca desistem. Neles o sonho não fica beliscado pela amargura dos factos. Num bom sentido, podem dizer: “tanto pior para os factos!”.

Presumo que não seja educativamente correto citar A Pedra Filosofal, de António Gedeão. Não é, certamente, pelo menos, culturamente correto, mas por isso mesmo, e porque o poema tem toda a razão, lembremos só o final: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida./Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/ entre as mãos de uma criança.

O principal é o sonho, porque “pelo sonho é que vamos”. Pelo sonho é que para aqui viemos. Como conta de um colega Sebastião da Gama, temos a certeza que a maioria de nós, e esmagadora, até se espantou quando, depois de se ter divertido tanto a dar aulas (e divertir é dizer muito pouco: porque se trata da realização de uma vocação – é como a plenitude da realização do valor), viu que ao fim do mês também tinha ganho algum vil metal. O sonho era grande. Como vão os nossos sonhos? Essa é a grande questão.

Quem não for professor por sonho será o mais infeliz dos homens. Ele nos mantém vivos ainda. Mas corre riscos sérios de se desvanecer…

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