Medos…

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Sendo as Universidades e os Institutos Politécnicos locais de ensino privilegiado, são (e têm que continuar a ser) também locais de cidadania. Locais onde se discutem direitos e deveres da nossa sociedade e onde os mesmos têm que ser postos em prática, por todos os seus intervenientes. O papel do docente é o de também ensinar e promover a cidadania, quer através de palavras, quer através do seu próprio exemplo.

Posto isto, arrepia-me sempre que algum colega me vem dizer que sou uma pessoa corajosa, que não tem medo de dizer e escrever o que muitos pensam. Arrepia-me também sempre que leio relatos de docentes que, anonimamente, vêm referir o seu medo de falar, dentro das suas instituições.  Mas do que é que nós, cidadãos de um país democrático (por mais escândalos que existam, continuamos a ser um país democrático) temos que ter medo?: De assumir as consequências do que dizemos/escrevemos? De dizer o que pensamos de uma forma clara e sem arrogâncias? Dos nossos colegas? Dos que nos dirigem? De eventuais represálias? Tretas!

Estamos a poucos dias da comemoração do 25 de Abril, o dia em que supostamente, esses medos desapareceram. Um dia para o qual também as Universidades Portuguesas contribuiriam de forma significativa (o melhor exemplo, talvez seja o da chamada crise académica de 1969, na Universidade de Coimbra)

Porque surgem estes medos agora? Ora aqui está um caso de estudo sociológico:  Por que razão temos nós estes medos? Para mim, por uma razão muito simples: porque deixámos de nos ver como um grupo de parceiros e passámos a olhar uns para os outros como concorrentes e adversários. Pelo que o medo vem única e exclusivamente de nós. De nos vermos como indivíduos isolados, e não como um grupo. Da nossa arrogância perante muitos dos nossos colegas, do cinismo e da hipocrisia. São estas, de acordo com a minha opinião, as razões dos nossos medos, e enquanto estes medos existirem, mais eles se irão transformar em perpectivas da nossa realidade e mais desconfiados, sós e encolhidos iremos andar.

São estes os exemplos de cidadania que nós, docentes do ensino superior, supostas referências de uma sociedade, estamos a dar aos nossos alunos. Ao futuro deste país. Aos nossos futuros professores, futuros dirigentes, quadros superiores, investigadores, empresários, etc..   Disto sim: destes nossos maus exemplos, e do futuro que eles moldam, tenho eu muito medo.

Luis Miguel Luz (EQUIPARADO a Assistente do 2º Triénio do Instituto Politécnico de Beja)

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9 Respostas to “Medos…”

  1. helga Says:

    Pois é …. foi por eu ser uma pessoa cordata, gostar de ensinar, tratando os colegas como parceiros e os alunos com respeito, enfim , tentando marcar a diferença para melhor que não vi o meu contrato renovado …… infelizmente assim foi!

    • luisluz Says:

      E se perdêssemos os medos talvez estas situações fossem mais difíceis de acontecer.

  2. nsousa Says:

    É fácil dizer o que se pensa quando a vida é bela e o emprego abundante. Só que quando o despedimento não é o fim de um calvário mas sim o início, as coisas já não são bem assim. A coragem e o exemplo são sempre de louvar, mas nem todos estão em condições de ser o herói.

    É em alturas de crise que o medo floresce. As revoluções dão-se na prosperidade.

    • luisluz Says:

      Não me vêm à cabeça revoluções que se tenham dado na prosperidade, mas posso estar enganado (sem qualquer tipo de ironia).
      As minhas condições (sem que me ache algum tipo de herói ou alguém especialmente corajoso) são as de ter contrato até 31 de Agosto.

  3. helga Says:

    Alguém dúvida que isto aconteça?
    “Família e amigos continuam a ser a grande ajuda dos mais novos (entre os 15 e os 34 anos) no acesso ao mercado de trabalho, após a saída das escolas, revela um estudo do INE”….

    O recém-chegado ao ESuperior não consegue sozinho lutar contra isto!
    Mesmo denunciado e perdendo medos, nalgumas instituições (não se deve generalizar!) estão sob as ordens de quem manda ….
    “Quem tem amigos não morre na prisão, diz o povo, e a realidade, pelos vistos, comprova-o.
    As ‘cunhas’ continuam a ser a grande fonte de entrada no mercado de trabalho, seja de novos seja de menos novos, é uma realidade que deveria ser combatida.
    Não se compreende que quando chega alguém tentando provar o seu mérito, esse alguém é afastado por inveja ou pura maldade.
    Na realidade, não se compreende que pessoas que provaram, na profissão serem excelentes, com provas dadas no ensino, anteriormente, e com habilitações (mestrados e doutoramentos) sejam preteridas em relação a outras que nem têm experiência na profissão nem habilitações (somente uma licenciatura).
    Estas pessoas ministram aulas em pós-graduações (muitas delas têm licenciaturas realizadas na mesma instituição onde as ministram)!
    Em Portugal, quem não tem amigos não se safa no ESuperior!

  4. Miguel Says:

    “Estas pessoas ministram aulas em pós-graduações (muitas delas têm licenciaturas realizadas na mesma instituição onde as ministram)!”

    Helga; eu não percebi. Queres tu dizer que muitas delas tiraram uma licenciatura na instituição onde precisamente estão a dar aulas de pós-graduação? É isso? Referes-te à endogamia, não é?

  5. helga Says:

    Miguel, infelizmente assim é …. e foi por isso que fui puramente afastada, por não pertencer à dignissíma “família”, ou seja, não vi o contrato renovado ….
    Quando entre foi por concurso, mas não conseguiram impedir porque tudo estava corretissímo, contudo com a falta de financiamento, por não ser da família fui a escolhida, nem mais ……..

    “A endogamia é o processo que conduz à contratação preferencial de docentes residentes na universidade contratante. Para assegurar a endogamia usam-se, frequentemente, duas de três estratégias. Primeiro, perfila-se o concurso de acordo com o currículo do candidato previamente escolhido. Segundo, abre-se o concurso divulgando-o o menos possível. Terceiro, preparam-se, cuidadosamente, armadilhas administrativas que permitam desqualificar os candidatos indesejáveis, ou seja, os que por mérito próprio teriam a possibilidade de destronar o candidato da casa numa avaliação curricular independente.
    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e a endogamia – antes encarada como sendo normal e mesmo legítima – é, actualmente, considerada, pela maioria dos fazedores de opinião, de indesejável. Por este motivo, os concursos, cuidadosamente redigidos para favorecer um currículo predeterminado, são, hoje, menos frequentes, dando-se preferência às mais discretas armadilhas administrativas”.

  6. helga Says:

    Miguel, infelizmente assim é …. e foi por isso que fui puramente afastada, por não pertencer à dignissíma “família”, ou seja, não vi o contrato renovado quando o deveria ter sido.
    Quando entrei foi por concurso, mas não conseguiram impedir a minha entrada porque tudo estava corretissímo, contudo posteriormente com a falta de financiamento, por não ser da família fui a escolhida para não ver o contrato renovado, nem mais ……..

  7. Manuel Bembom Louceiro Says:

    Será um comentário curto, mais a mais por se constituir num a citação, mas gostei “Sendo as Universidades e os Institutos Politécnicos locais de ensino privilegiado, são (e têm que continuar a ser) também locais de cidadania. Locais onde se discutem direitos e deveres da nossa sociedade e onde os mesmos têm que ser postos em prática, por todos os seus intervenientes. O papel do docente é o de também ensinar e promover a cidadania, quer através de palavras, quer através do seu próprio exemplo.”

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