Universidades a mais?

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Quem ler o título do Diário de Notícias até pode ser levado a crer que essa afirmação se baseia em algum estudo.

Afinal não. Afinal é apenas um desabafo do Prof. Luciano de Almeida, ex-Presidente do CCISP, Vice-Presidente do mesmo, mas aparentemente o homem que fala pela estrutura. O dado que Luciano de Almeida nos apresenta é a comparação do número de instituições por milhão de habitantes em Portugal, 17, e em Espanha, 7.

Ora, seria um bom indicador se Espanha estivesse bem servida de Ensino Superior. Mas Espanha, tendo algumas universidades muito interessantes, tem também uma rede que concentra estudantes em Universidades demasiadamente grandes. Questione-se um dirigente da Universidade de Barcelona ou da Complutense acerca das dificuldades de gestão de uma instituição de 90 mil estudantes, e conclua-se que não parece o assunto esgotado por aí.

Os EUA, são muitas vezes tidos como um farol no ensino superior, pouco para o meu gosto uma vez que ao lado das super-universidades surgem chafaricas que eu não recomendaria ao meu pior inimigo. Mas se quisermos, podemos comparar aí as mais de 3000 instituições de ensino superior para cerca de 305 milhões de habitantes. E aí teremos uma noção de sobre dimensionamento da nossa rede em número de instituições.

Mas isso é um indicador definitivo? Qual o número de vagas oferecido? Qual a dimensão das suas unidades orgânicas? Qual o número de edifícios (ou área dos mesmos) por estudante? Qual a taxa de abandono? Qual a percentagem de estudantes que saem com uma formação (equivalente a uma licenciatura)? É que podemos chegar à conclusão que não há grande diferença, ou seja, que não é por aí que o gato vai às filhoses.

É claro, que nesses países o estudante do superior não vale menos no orçamento do que o do secundário, como se vai passando por cá. Nem há um abandono escolar tão obsceno quanto em Portugal. Nem um nível de iliteracia tão alto. Nem uma percentagem de licenciados tão baixa.

Por outro lado, não me parece correcto colocar-se a questão em termos de a rica Espanha não se dar a despesas a que nos estamos a dar, pelo motivo simples de a fonte da riqueza ser precisamente o investimento em capital humano que nos falta e que temos que fazer para lhe acompanhar o passo. Pense-se na Finlândia dos anos 80 e 90…

Tenho uma grande fé na reorganização da rede por motivos de eficiência e não redundância, mas estou certo de que uma rede mais difusa tem a vantagem de chegar a mais públicos, tem um efeito democratizante maior, e é mais capaz de recuperar populações que nunca tiveram acesso ao ensino superior para a qualificação terciária.

É uma questão de fé, é uma questão ideológica, mas também é uma questão de não tentar aproveitar um momento de crise para fazer passar uma agenda expansionista de um punhado de instituições contra o interesse geral da sociedade, que em última análise é a quem se destina qualquer política de ensino superior.

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